Uma Religião Chamada Vazio I

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Ana Calazans

Para além de modismos e apropriações, o zen permanece em boa parte um mistério para a mente ocidental. Uma doutrina que é,por sua própria natureza e definição, incomensurável e intransmissível e que escapa a linguagem desmonta por completo nosso mecanismo racionalizante e encapsulado – o único que a maioria de nós conhece. Talvez sejamos avessos a simplicidade da vida e por demais aferrados a nós mesmos para alcançar a beleza luminosa e despida do zen, mas nada nos impede de apreciá-la.

Meu primeiro contato intelectual com o budismo zen ocorreu por volta dos 16 anos com a leitura de Introdução ao Zen Budismo de Daisetz Teitaro Suzuki. Minha curiosidade sobre a doutrina, no entanto, era bem mais antiga, parte de meu interesse generalizado por religiões. A inclinação pelas doutrinas orientais foi reforçada por ter lido e relido antes dos dez anos O Fio da Navalha, de Maugham, livro predileto de minha avó paterna e até hoje também um dos meus.

Como latina de herança mediterrânea, hedonista e apegadíssima a meu ego, nunca me senti naturalmente inclinada à ideia de dissolvência do eu tão cara ao zen, mas confesso, não sem um pouco de vergonha, que, a despeito disso, desde a adolescência utilizo aqui e ali “técnicas” zen de forma utilitarista: dispensei duas funcionárias apelando para o zen, por exemplo.

Jung, um portento de bom senso, lucidez e erudição, estava convencido de que adequar a mente ocidental à concepção e estrutura “religiosa” oriental era uma tarefa (quase) impossível; dizia também que falar do zen é sempre cometer um crime contra seu espírito – pois o zen é, por sua própria natureza e definição, incomensurável e intransmissível. Mas, ocidental perfeita e acabada, resultado de séculos de herança grega e judaica, me dou o presente de me contentar com a apreciação ética e estética do zen; sua beleza e simplicidade misteriosa bastam-se para mim, que acredito no Endimião de Keats: a thing of beauty is a joy for ever.

O zen foi forjado na China, mas o uso comum refletiu a sedimentação da doutrina no Japão: a expressão japonesa “zen” deriva da palavra chinesa chan ou ch’an-na, que é uma corruptela do sânscrito dhyana – estado meditativo ou reflexivo em que o praticante experimenta a união com a “realidade” do universo.

A experiência do zen se dá em um plano eminentemente não-discursivo, não-verbal: o que o define é o satori (palavra pobremente traduzida por iluminação). O satori não pode ser descrito em palavras; até mesmo os expedientes da analogia e da metáfora – tão queridos dos místicos ocidentais – não lhe caem bem e foram raramente usados pelos iluminados. Seu “território” psicológico está fora da consciência, pátria do pensamento discursivo – o que bem pode ser entendido por nós como situado num plano não-racional. Os mestres zen levam muito a sério a ideia de que a descrição da verdade não pode ser confundida com a verdade e, por isso, são muito reservados ao expor sua experiência de iluminação, o que se conforma ao caráter não-intelectual da doutrina.

O zen (ou chan) foi levado para a China pelo monge budista Bodhidharma em algum período entre os séculos V e VI – quase mil anos após Sidarta Gautama ter alcançado o satori sentado sob a figueira[ii]. Filho de um príncipe do Sul da Índia, Bodhidharma se tornou discípulo do patriarca budista Prajnatara (diz-se que Prajnatara era um mestre de vajramushti, arte marcial indiana que alguns historiadores reconhecem como a matriz das demais lutas orientais). Após transmitir a Bodhidharma seus ensinamentos, Prajnatara orientou o jovem monge a difundir o budismo na China. Diz a lenda que ao chegar a China ele primeiro passou pelo Sul e depois foi acolhido pelo mosteiro budista Shaolin nas montanhas de Honan, no Norte do país. Considerado o 28° patriarca de uma linhagem que se inicia com Sidarta Gautama, Bodhidharma é reconhecido também como o codificador do kung fu[iii].

Continua…

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[i] Em seus primeiros anos na Índia o budismo se dividiu em duas grades correntes, a Mahayana, ou grande veiculo, e a Hinayana, pequeno veículo. O budismo Theravada, de genética Hinayana, que se expandiu pela sudeste asiático Indochina e Malásia, se baseia na chamada versão pali dos primeiros escritos budistas e tem um caráter doutrinário mais formal e rígido, tendo sofrido pouquíssimas alterações ao longo dos séculos. O Mahayana, por sua vez, é composto por uma série de escritos sânscritos que foram reelaborados, interpretados e enriquecidos com o passar dos anos e se espraiou, dando origem a leituras tão distintas quanto o lamaismo tibetano e o zen.

[ii] O kung fu se segmenta primariamente em duas escolas: a escola interna (tai chi chuan, pakua etc.) deriva da tradição taoista e a escola externa (choy li fut, garra de águia, tong long…) do budismo chan.

[iii] Enquanto o confucionismo permaneceu uma religião de elite, o taoismo era a grande religião das massas chinesas, rica em lendas, mitologia e superstições. Muitos sustentam, inclusive, que Lao Tsé, ou Lao Tzu, tido como o autor do Tao te king, é um ser lendário.

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