BuDo, o Caminho a cada Instante

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Ana Calazans

A tradição chinesa do kung fu foi quase que completamente extinta pelas perseguições políticas, por revoltas e guerras como a dos boxers e do ópio e, por fim, pelo etnocídio perpetrado por Mao Tsé Tung em sua Revolução Cultural. O que restou está em boa parte distorcido e sobrevive em derivações, como os malabarismos do wushu moderno; é consenso entre os mestres que a “pureza” do kung fu hoje está muito mais presente fora da China, em países como os Estados Unidos e o Brasil.

O mesmo não ocorreu com a tradição marcial japonesa, o budo, que, seja por questões culturais, políticas ou históricas, se expandiu e fortaleceu dando origem não apenas ao judo e ao karate, mas também ao aikido, ao kendo e ao kyudo (arco e flecha), entre outras técnicas.   As artes de combate foram levadas para o Japão pelos monges e praticantes do kung fu chinês e lá encontraram terreno fértil para sua disseminação através de locais como Okinawa, por exemplo.

A abordagem “filosófica” do budo, que significa em japonês “o caminho das artes marciais” ou “o caminho da guerra”, e do bushidoo código de honra dos samurais nipônicos, se adéqua de forma harmônica à tradição chinesa dos monges guerreiros, assim como o zen foi um derivativo da tradição chan semeada por Bodhidharma na China. Essa adequação somada à falta de literatura de qualidade sobre o kung fu e ao fato de não apenas o zen budismo, mas também o taoismo e o confucionismo chineses terem sido influências basilares para o espírito marcial japonês tornaram minhas reflexões sobre o kung fu muito mais insulares que continentais.

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O Guerreiro Criativo

Uma característica que para mim é muito negligenciada quando se discorre sobre artes marciais de genética chinesa e japonesa e, consequentemente, sobre suas espiritualidades de base, as doutrinas zen budista e taoista em especial, é seu caráter criativo. O rígido código de honra e de conduta das disciplinas marciais impede que vejamos em um primeiro olhar seu potencial de autocriação individualizada.

As orientações para o combate – que se adequam também à meditação -, que versam sobre a necessidade de esvaziamento da consciência e da atenção e presença radical no instante que se vive, não são regras fixadas ao acaso ou fruto de uma tendência cultural dos homens do Oriente Extremo. Os monges shaolin da China, assim como os samurais japoneses, sabiam que o gesto desatento, a dúvida e as paixões (o medo, a raiva…) poderiam custar-lhes a vida em um embate.

Essas orientações e seu corolário, o estado de atenção plena, não funcionam, no entanto, como um elemento constrangedor da intuição e da criação – que aqui relaciono de maneira proposital. A mente hishiryo (sem nenhuma consciência pessoal, sem ego), imóvel, vazia e plena de energia, faz com que o guerreiro possa penetrar nos fenômenos, se integrar a eles; faz com que ele se conecte à sua intuição, que nada mais é do que uma ligação clara e desobstruída com o manancial da inteligência universal e seu potencial mítico e imaginativo.

(É muito difícil agarrar o sentido da expressão “mente vazia”. Eu só consegui me aproximar do conceito quando me deparei com uma explicação bem primária: ocorre que não apenas na lógica das artes marciais orientais, mas também no senso comum, para poder “receber” um conteúdo necessitamos ter espaço disponível. Na lógica oriental isso significa a interrupção do fluxo caótico da consciência.)

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Numa luta em que os oponentes têm igualmente um corpo forte e uma técnica (wasa) desenvolvida é a intuição, o instinto, algo ligado ao lugar mais profundo e antigo do homem, em resumo, sua força criadora, que vai decidir a vitoria ou a derrota[1]. Assim, em uma luta, a intuição e a ação devem ser simultâneas. Não deve haver intervalo porque intervalo significa pensamento e o pensamento dualiza, distingue a mente e o corpo. Nas artes marciais se deve pensar com o corpo inteiro.

A questão temporal é a marca da distinção mais forte entre as artes marciais e os esportes. Taisen Deshimaru destaca que nos esportes existe o tempo, a pausa; existe um intervalo, mesmo que ínfimo, em que a próxima ação pode ser planejada: o local exato em que a bola deve ser arremessada, a precisão do deslocamento de um atacante… “Nas artes marciais não há nada mais que o instante”.

Ainda que se caia, não importa onde, não se deve ter medo, nem estar ansioso. Devemos nos concentrar no “aqui e agora”, não economizar energia: “tudo deve provir do aqui e agora”. Deve-se mover o corpo naturalmente, automaticamente, inconscientemente, sem consciência pessoal. Enquanto que se utilizamos nosso pensamento, ação e comportamento se tornam lentos, duvidosos. Surgem perguntas, a mente se esgota, a consciência vacila como uma chama agitada pelo vento.[2]

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O Guerreiro Moral

 A ideia do autodomínio, tão cara às artes marciais e as doutrinas orientais, implica, consequentemente, em um aperfeiçoamento moral. Por meio de um rico jogo de conexões simbólicas e fisiológicas, as técnicas de combate e rotinas marciais (formas, katis, katas, taolus etc.) e o estado mental se ligam para expressar o espírito ou a mente (shin) do praticante[3].

As formas marciais elaboradas a partir da combinação de ataques e defesas e suas transições expressam um embate em que o oponente é menos o adversário do que nós mesmos e têm como foco a superação do dualismo. Em uma comparação aproximada, o “método” das artes orientais almeja alcançar o que a psicologia junguiana chama de individuação.   A condição necessária para um bom combate, a saber, a união entre o espírito (shin), a técnica (wasa) e o corpo (tai), reflete o equilíbrio do homem.

Por isso os mestres insistem que uma conduta moral correta é condição para quem escolhe o “caminho” (Do) – forma como os japoneses expressam o conjunto de aptidões e saberes que conformam um artista marcial. Espiritualidade e ética são aqui sinônimos: a sintonia entre o querer, o pensar e o agir promovem o equilíbrio de energia física e psíquica. Dessa forma o comportamento influencia a consciência e a consciência influencia o comportamento.

Cada ação e gesto são importantes para os orientais e é a isto que se deve sua inclinação à ritualização: a valorização do ato justo é a forma de se lembrarem continuamente de que se deve estar completamente presente em cada instante da vida – “não se deve sonhar a vida”. Assim ocorre durante a execução de uma forma marcial; e assim deve ocorrer no trato com os semelhantes e consigo próprio.

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A essência do budo não é o combate, mas o autoaperfeiçoamento por via da introspecção e da conduta justa. Embora o “caminho” deva ser trilhado no mundo e não faça sentido a não ser em meio aos semelhantes ele é também uma jornada solitária onde o mestre e o discípulo sabem que chegará o momento em que este último terá que atravessar sozinho seu abismo interior.

Sekito Zenji (700-790) em sua obra  San Do Kai  (união da essência e dos fenômenos) diz que no caminho “não existe nem mestre do Norte, nem mestre do Sul”. Toda a disciplina marcial se revela então estar à serviço da quebra da norma:  o guerreiro deve ser um outsider pois chega o momento em que terá que abandonar o caminho seguro, forjar suas próprias regras para alcançar uma única vitória: a espiritual.


[1] O mestre Kodo Sawaki dizia que o segredo das artes marciais é que não há vitória, nem derrota. Não se pode vencer nem ser vencido.

[2] DESHIMARU, Taisen. Zen et Arts Martiaux.  Éditions Seghers, Paris, p. 81. Tradução da autora.

[3] Em chinês o ideograma shin (), kokoro em japonês, pode ser lido como espírito, coração e mente, seja de modo individual ou em conjunto. Daisetsu Teitaro Suzuki costumava dizer que shin é uma expressão que desafia qualquer tradução (para os ocidentais) – como boa parte dos ideogramas não dualistas chineses e japoneses. Para os chineses o ideograma shin (Hsin) é representado como um coração preso a uma árvore: para eles a mente estava no coração. (Gosto em particular de interpretá-lo como o “self” junguiano, mas talvez isso seja temerário.)

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10 comentários Adicione o seu

  1. Joao Sergio Azevedo disse:

    Ana, adorei o texto! Muito bom mesmo… de forma direta vc descreveu o caminho marcial! Parabens…

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    1. orderfromnoise disse:

      Ah professor Sérgio, que conforto saber que dei nenhuma pedrada, rs!Obrigada pela generosidade

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  2. Ilo disse:

    Adorei o texto!
    É bom ser lembrado de vez em quando de valorizar cada Ato, e de como isso se relaciona e reflete a prática do Budo/Wude!
    Valeu!

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    1. orderfromnoise disse:

      Obrigada Ilo. Seu sorriso faz falta na academia.

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  3. Tomas Magno Stopa Boaventura disse:

    Muito bom Ana. Seu Blog deveria ser leitura obrigatória com direito a prova teórica cobrada em exames de graduação em todas as academias e escolas de artes marciais orientais..rsrsrsrsrsrs….

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    1. orderfromnoise disse:

      Ah Tomas Magno se todos me dessem o estímulo que você me dá… Você é muito generoso e gentil. Obrigada

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    2. orderfromnoise disse:

      …E a primeira postagem de suas sugestões bombou, a animação do Tao Te Ching!

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      1. Tomas Magno disse:

        Eu vi. Os criadores estão de parabéns, ficou ótima à adaptação desse clássico para animação !

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