Uma Religião Chamada Vazio II

 

Ana Calazans

Leia a primeira parte do texto aqui

A tradição conta que após chegar à China pelo Sul, o 28° patriarca budista Bodhidharma alcançou o mosteiro Shaolin nas montanhas de Honan, no Norte do país. Conta-se que ele passou nove anos meditando em frente à parede de uma caverna próxima ao templo e que, para se manter desperto, cortou as pálpebras (por isso, e para denotar o estado de atenção do zen, ele é sempre representado com os olhos arregalados); suas pálpebras caíram no chão e no local nasceu o chá (linda mitologia que reflete o caráter divino do monge e da planta para os chineses).

O mestre deixou apenas três discípulos, Sheng-fu, Tao-yu e Hui-ko; ao último ele transmitiu seu manto e a tigela de sua linhagem – os escritos contam que para ser aceito como discípulo, Hui-ko passou muitos dias na neve e chegou a cortar um braço como prova de sua intenção. Teria também entregue a Hui-ko uma cópia do sutra Lankavatara, um dos mais importantes no desenvolvimento do budismo não só na China e no Japão, como no Tibete.

A abordagem do budismo de Bodhidharma se diferenciava do então praticado na China; ele atuou como um reformador da doutrina, despojando-a do que não era essencial e integrando-a a vida. Sua herança fez mais do que isso: abriu a cortina da religião para a grande obra de Buda, o mundo, e restaurou a capacidade de maravilhamento e de exercício prático do dharma no contato com os outros seres em contraposição à veneração ritualizada e a ênfase na hermenêutica e exegese dos textos sagrados.

Não se sabe até que ponto Bodhidharma influenciou ou foi influenciado. Certamente no monastério Shaolin ele encontrou o ambiente perfeito para moldar as bases do chan. A ritualística e a inclinação pela complexidade e interpretação das escrituras e a tradição de ascese e isolamento dos indianos – herdada do bramanismo e relacionada a imersão mística dos santos hindus – se contrapunham na China a necessidade de uma abordagem mais prática e mais comunal do budismo. Não é descabido supor que a tensão política entre o Sul e o Norte, que marcou o período compreendido entre os séculos III e VI chineses, e o isolamento do mosteiro, tenham sido fatores críticos para direcionar a prática da doutrina para um caminho mais pragmático e integrado ao dia-a-dia dos mestres e aspirantes.

Assim, a mentalidade chinesa e o desenvolvimento do chan aprofundaram a ideia de que o importante não é apenas a iluminação, mas o caminho percorrido para sua conquista aqui, em meio aos homens, na vida diária. A atitude mental do zen pode desta forma ser aplicada da meditação à lavagem de pratos. Com o passar do tempo os ensinamentos de Bodhidharma foram se mesclando ao taoismo, a grande religião popular da China[i]. Como destaca Alan Watts, o chan uniu o idealismo imóvel, a serenidade e austeridade do budismo com a poesia e fluidez do taoismo e sua reverência pelo incompleto, o imperfeito e o mutável como reveladores da presença divina da vida no fluxo do tao; até hoje a expressão “tao” é usada como sinônimo da natureza búdica ou dharma (lei). Além disso, a veia bem humorada do taoismo também foi transmitida ao chan.

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 “O zen encontrou os seguidores do Mahayana procurando a verdade nas escrituras, em homens santos e em budas, crendo que eles a revelariam, caso vivessem uma vida pura. Uma vez que a aparente humildade humana, que julga que a sabedoria é algo sublime demais para revelar-se nas coisas comuns desta vida, é uma forma sutil de orgulho, intimamente o homem sente que deverá ser tão grande a ponto de retirar-se das coisas do mundo antes que possa receber a verdade, e, em seu orgulho, pensa que só poderá recebê-la dos lábios dos sábios ou das páginas das escrituras sagradas. Ele não a vê nos seres humanos ou nos incidentes da vida diária. Não a vê em si mesmo, pois novamente é muito orgulhoso para se ver tal como é. Ao buscar essa verdade ele oculta as imperfeições sob suas ações meritórias e aproxima-se dos budas por trás de uma máscara.[ … ] O zen ensina que ninguém pode encontrar Buda num paraíso, ou em qualquer reino celestial, até que primeiramente o tenha encontrado em si mesmo e nos outros seres sensíveis, e ninguém poderá esperar encontrar a iluminação num eremitério, a não ser que possa encontrá-la na vida do mundo. O primeiro principio do Mahayana é o de que todas as coisas, mesmo que sejam vis na superfície e aparentemente insignificantes, são aspectos da natureza búdica, e isso significa que cada ser ou coisa tem de ser aceito; nada pode ser excluído da Terra do Lótus da Pureza como sendo mundano, trivial ou baixo. Como Thomas a Kempis escreveu na Imitação de Cristo: ‘“Se teu coração estiver correto então cada criatura será um espelho da vida e um livro da santa doutrina’.”[ii]

chan teve sua era de ouro na China durante a dinastia T’ang entre os séculos VIII e XIV; a partir do século XV sua influência foi decrescendo – em especial entre as classes populares – dando lugar ao Budismo da Terra Pura e sua devoção por Amitabha[iii] (Amida no Japão), o buda da compaixão.

___________________

[i] WATTS, Alan. O espírito do zen. Porto Alegre, L&PM,2010. pp-46-48

[ii] Pode parecer confuso para o ocidental a devoção a “vários” budas. O significado mais usual da palavra ”buda” é “o iluminado” no sentido de “desperto”, aquele que acordou do sonho do samsara. Sidarta Gautama encarna todas as “qualidades” do estado búdico, é o buda arquetípico. Mas, assim como ocorre em outras doutrinas e religiões, as divindades, santos e avatares podem se manifestar de formas diversas e com atributos variados; assim Amitabha é o buda da compaixão, Mayttreia o buda messiânico, Amytaius o buda da longevidade, Aksobhya o buda da sabedoria etc.

[iii] Para Jung o zen budismo é extremamente heterodoxo, sendo uma espécie de heresia no seio do budismo.

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