Uma Religião Chamada Vazio III

 

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 Ana Calazans

Leia as partes I e II do presente texto clicando abaixo:

Uma Religião Chamada Vazio I

Uma Religião Chamada Vazio II 

Como alcançar o satori? Como imaginar uma “consciência” sem um “eu”, sem a ideia de sujeito? A premissa do zen é a “destruição” do conteúdo racional e a dissociação, de maneira a permitir o acesso a um plano psíquico determinado,experimentado como um não-eu e também como experiência de impermanência e de unidade e participação em todas as coisas vivas. Isso tudo não é algo complicado e tampouco sisudo: o bom-humor, o anticonvencionalismo e a apreciação da beleza estão muito mais perto do zen do que costumamos acreditar.

Como ocidental e não-iniciada no budismo, só posso expor o zen por via de uma abordagem racional e psicológica – este é, na verdade, o grande crime de que fala Carl Gustav Jung[i]: descrever algo justamente com as ferramentas que ele despreza, ou seja, o discurso do logos.

Diferentemente da maioria das religiões monoteístas, particularmente as cristãs, o zen trilha o caminho oposto ao da doutrina da graça (à ideia de que a salvação e a iluminação são algo que vem do exterior e não exige maiores esforços ou engajamento do fiel). Tanto o caminho como a experiência do satori se desenvolvem em um plano de separação, de auto-criação absolutamente solitária, mas, paradoxalmente, se completam (e nisso se aproximam das experiências místicas ocidentais) com a experiência da unidade, da comunhão.

O oposto de bodhi, o conhecimento pelo qual o indivíduo experimenta a iluminação, é avidya (sânscrito), a ignorância; o que define avidya é a crença, a auto-ilusão, na dualidade do “eu” e da realidade. Para os adeptos do zen, a consciência reflexa, conforme entendida pelos ocidentais, é considerada um estado inferior relacionado a avidya (o desperto sabe que o mundo é sonho, uma fantasmagoria criada pela mente). Nos mosteiros, os noviços tem que fazer um contínuo exercício de irrealidade e não-reflexão: “Não perca tempo com a ideia sobre onde o Buda está ou sobre onde ele não está; siga rapidamente adiante”, aconselha um dito zen. O zen é mover-se com a vida, sem tentar parar seu fluxo. Uma vez alcançado o estado búdico, o homem está livre do samsara (a roda eterna de morte e renascimento) e vê o verdadeiro rosto do mundo: a morada santa de Buda, a terra pura (sukhavati), terra da bem aventurança.

Mas, como se alcança bodhi e o satori? Bom, para nós é inconcebível imaginar uma consciência sem um eu, sem a ideia de sujeito, de ipseidade, mas não para o oriental. A premissa do zen é a “destruição” do conteúdo racional e a dissociação, de maneira a permitir o acesso a um plano psíquico determinado. Esse plano é experimentado como um não-eu e também como experiência de impermanência e de unidade e participação em todas as coisas vivas sob o manto da divina compaixão (karuna).Para os adeptos do zen, esse não-eu é na verdade o verdadeiro eu; Jung usou a expressão si-mesmo (self), derivada de sua psicologia analítica, para se referir a esse estado mental. “Da mesma forma que o eu é uma certa experiência do meu próprio ser, assim também o si-mesmo é uma experiência de mim próprio, a qual, entretanto, já não é vivida sob a forma de um eu mais amplo ou mais alto, e sim sob a forma de um não eu”.[ii] O si-mesmo não é mais percebido, segundo a análise de Jung, como uma atividade da própria psique e sim como se o caráter subjetivo do eu fosse transferido ou assumido por outro sujeito, que tomasse o lugar do eu.

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As “técnicas” utilizadas pelo zen para induzir a esse estado de consciência são o koan (espécie de questão ou enigma proposto pelo mestre ao discípulo que, por seu caráter paradoxal e nonsense, não pode ser elucidado pela razão)[iii] e o zazen (meditação). Alguns escritos sustentam que o zazen está a serviço do koan, mas me parece mais razoável, baseada no caráter mais pragmático dos adeptos do zen – encarar os dois como práticas que podem ser exercitadas de forma independente sem prejuízo. Nos mosteiros o zazen era utilizado como prática de concentração no koan, mas é certo que os noviços deveriam permanecer com o koan na mente durante todas as suas rotinas diárias. O entendimento do koan é visto como um indicador de iluminação.

Mais uma vez é Jung que dá uma interpretação psicológica dos efeitos do koan. Para ele, quando a consciência é esvaziada de seu conteúdo, este é transferido para um estado de inconsciência; a energia que era empregada nos conteúdos mentais é, assim, transferida para a “reflexão” no vazio indiferenciado (sunyata) ou para o koan; ambos os “conceitos” têm como característica a estabilidade e um caráter não imagético e não-analítico propiciando uma espécie de curto circuito no dinamismo da consciência. A meditação nos koans ou no vazio, auxiliada pelo zazen, ajuda no esvaziamento e no fechamento da consciência (tarefas nada fáceis, mesmo para um oriental) que, segundo o psicólogo, tem como resultado a produção máxima de “tensão que levará a eclosão final dos conteúdos inconscientes na consciência”. No estado inconsciente todas as diferenças são diluídas, daí deriva a dedução de Jung de que também desaparece toda distinção psíquica entre indivíduos particulares criando a experiência de unificação – participação mística. A destruição do intelecto racional[iv] cria uma falta de pressuposto quase absoluta da consciência, por isso, na análise junguiana, o zen difere de todas as outras práticas filosóficas e religiosas de meditação.

Para o zen, a mente do homem desenha a vida, mas sua técnica e seu pincel registram um desenho sem conexão. É como se o homem fosse vítima de um auto-enfeitiçamento, tornando-se um títere de sua mente racional: a mente é seu próprio lugar e por si mesma pode fazer do inferno um céu e do céu um inferno, diz um dito budista, pois, para o zen, o nirvana e o samsara são a mesma coisa e o homem sábio vê o dharma (a lei de Buda) nas coisas comuns.

____________________________

[i]JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião oriental. Petrópolis, Vozes. p. 82

[ii] Idem, p. 86

[iii] Os budistas usam uma bela metáfora sobre o koan afirmando que eles são lisas bolas de aço: quanto mais violentamente a espada do intelecto bate nelas, mais elas saltam

[iv] WATTS, p. 63

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