Uma Religião Chamada Vazio IV

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Ana Calazans

Leia as partes I, II e III do presente texto clicando abaixo:

Uma Religião Chamada Vazio I

Uma Religião Chamada Vazio II 

Uma Religião Chamada Vazio III

A insistência na simplicidade e na apreciação da vida no que ela tem de mais trivial é característica do zen, bem como seus corolários: o inconvencionalismo, a atitude bem-humorada e a ausência de hierarquia moral. O patriarca zen Hui Neng dizia que a única diferença entre um buda e uma pessoa comum e que um percebe isso e o outro não, ou seja, todos os seres são potencialmente Buda – impressiona a distância desta abordagem em relação a percepção ocidental acostumada a ver a divindade sempre como alteridade absoluta e inatingível. Já mestre Pai Chang, o codificador das regras monásticas do zen, disse que o zen é comer quando tem fome, dormir quando está cansado. A concepção de que os questionamentos sobre a natureza das coisas devem ser deixados de lado é ilustrada com a resposta desconcertante e irracional do mestre a um discípulo que queria saber se os animais tem alma. À pergunta, o mestre respondeu com um grito e uma gargalhada: wu!

Sendo a moral filha do intelecto ela também não é levada muito a sério pelo zen: “[A moral…] é rígida, intelectual e limitadora, e o zen começa onde a moralidade acaba… é valiosa enquanto for reconhecida como um meio para se atingir um fim; é uma boa serva, mas um mestre terrível[i]” – é um mestre terrível porque promove a intolerância, a rigidez e a severidade exacerbada.

Outra característica heterodoxa do zen no seio do budismo é a insistência (como já registrado, parte da visão renovada de Bodhidharma) em vivenciar o dharma no mundo. A ascese e a misantropia não são traços definidores do zen; o koan e o zazen têm como objetivo o conhecimento, mas esse conhecimento, bem como sua captação no relâmpago do satori, só se justifica se servir à libertação de outros homens e do mundo. O ideal budista do bodhisattva, do iluminado, só faz sentido se puder ampliar a participação dos outros homens no nirvana, atuando como “força anônima que trabalha para a iluminação da sociedade”.

A compaixão e o amor pelas coisas do mundo (mesmo exercitando o desapego) são uma face do zen que muitas vezes fica obscurecida; nunca é demais ressaltar em tempos de massificação e secularização generalizadas, que a representação de seus praticantes como homens refratários e meditativos que se dedicam ao zazen, à caligrafia, pintura ou a cerimônia do chá é muito mais uma estilização vazia do que o sentido vivo da herança chan: em harmonia com o tao, o adepto do zen é um homem absolutamente comum e integrado ao mundo que “se sente um com o bem e com o mal, pois sabe que ambos são parte do todo” e que “crê no uso da quantidade correta de tempo, energia e de material necessário para alcançar determinado objetivo”. Esta concepção se aproxima do princípio do wu-wei (muito aplicado nas artes marciais) que preconiza o domínio das circunstâncias sem se envolver com elas através da adaptação.

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Uma mente sem hesitação

A influência do zen na cultura da China, do Japão e de outros países do extremo Oriente foi e ainda é extremamente forte. O zen anima com seu sopro a arquitetura japonesa, as pinturas das escolas sumiê e kano, a caligrafia, o kung fu, jiu-jitsu e kenjutsu (kendo). Também é a alma da cerimônia do chá – um sábio disse que “o gosto do chá e o gosto do zen são iguais” – com suas qualidades de evasão e contemplação hedonistas repletas de yugen (o atributo do sutil em oposição ao óbvio, da insinuação em oposição à afirmação). Em segmentos como o das artes marciais o zen praticamente domina a filosofia e os códigos de conduta.

O kendo japonês (esgrima), por exemplo, foi profundamente influenciado. Alan Watts cita um ensinamento do mestre Takuan[ii]: “Isto – que pode ser denominado ‘não interferência’ na atitude da mente – constitui o mais vital elemento na arte da esgrima, bem como no zen. Caso exista algum espaço, seja da espessura de um fio de cabelo, entre duas ações, aí está uma interrupção[iii]” (o que, segundo Watts, quer dizer que o contato com o mundo não deve ser interrompido pelo pensamento discursivo). Prossegue Takuan “[…] Faz com que tua defesa siga o ataque sem um momento de interrupção, e não haverá dois movimentos que possam ser conhecidos como ataque e defesa [iv]”. Watts transpõe o ensinamento do kendo para a vida e iguala o “ataque” ao mundo exterior e a “defesa” a nossa resposta a ele: “[…] o egoísmo desaparece quando o contato entre os dois é tão imediato que se movem juntos”. Takuan destaca que no zen é muito valorizada uma mente que não hesita e usa a imagem de um bote que desliza suavemente em direção as corredeiras.

Como já citado, a imediatez é a marca da iluminação no zen (nas raras metáforas da doutrina ela costuma ser comparado ao relâmpago). O satori é uma experiência que bloqueia qualquer linguagem e atinge o fiel como algo de novo; não há nada de sobrenatural nele: alcançar o satori é, simplesmente, ver o mundo como ele realmente é. Um ditado zen diz que para o jovem monge que inicia seus estudos as montanhas são montanhas, as árvores são árvores e os homens são homens, depois as montanhas deixam de ser montanhas, as árvores deixam de ser árvores e os homens deixam de ser homens; quando ele alcança o satori as montanhas voltam a ser montanhas, as árvores voltam a ser árvores e os homens voltam a ser homens. (No âmbito da mística cristã o satori corresponde a uma experiência de transformação, como a conversão de São Paulo no caminho de Damasco).

Desta forma, cada detalhe do mundo conforme se apresenta é precioso, se reveste de uma luz divina e está mergulhado no Tathata, a natureza do Buda; não há mais necessidade de discernimento ou julgamento, pois nada é bom ou mal, não há mais a passagem do tempo, tudo apenas “existe” como uma extensão do iluminado. “O início do universo é agora, pois todas as coisas estão sendo criadas neste momento; e o fim do universo é agora, pois todas as coisas estão desparecendo neste momento!”.

“A própria alma é a luz da divindade e a divindade é a alma”.

Encerro com uma linda oração zen

Assim como os céus são ilimitados, assim seja a minha compaixão com todos os seres sensíveis. A mente libertada deve ser livre e não se apegar às coisas terrenas. Como as flores do lótus são puras e lindas, elevando-se da lama, assim seja a minha meditação, mesmo que eu viva neste mundo de ilusões. Com a mente assim purificada, ofereço minha homenagem a Buda, ao ser iluminado.

_____________________________________

[i] Traduzido por D.T. Suzuki e citado no III volume do Essays in Zen Budhism

[ii] WATTS,Alan. O Espírito do Zen. L&PM,  p. 52

[iii] Idem, p.53

[iv] Idem, p.52

 

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