Tradução Taisen Deshimaru: Deixar ir – Trecho de Zen e Artes Marciais

Apresentação1
Kyu Do: O Arco e Flecha

*Excerto da Terceira Parte de Zen e Artes Marciais, Bun Bu Ryodo – O Caminho Duplo, Deixar Ir traduzido por Ana Calazans

No Budo a noção de sutemi é muito importante, Sute, abandono; Mi, corpo. A palavra significa então “jogar o corpo, abandonar o corpo”. Isto é válido não apenas no karate, mas também no kendo, no judo e em todas as artes marciais.

No kendo existem numerosas escolas. Mas todas são sutemi, ação de abandonar o corpo. A primeira escola se chama Tai Chai Ryu: Tai, corpo; Chai, abandonar, renunciar. Depois temos Mu Nen Ryu: Mu, negativo; Nen, consciência, abandonar a consciência e também Mu Shin Ryu: mente; portanto, abandonar a mente. Mu Gen Ryu: combater sem olhos, abandonar os olhos. Mu Te Ki Ryu: sem inimigo.  Mu To Ryu: sem espada. Shijin Ryu: Shin, a mente verdadeira. Ten Shin Ryu; Ten, céu, espírito cósmico. Existem muitas escolas, mas todas têm em comum o sutemi; a ação de abandonar, de renunciar ao corpo, esquecer o ego, seguir somente o sistema cósmico. Abandonam-se os apegos, os desejos pessoais, o ego. Controla-se o ego objetivamente. Ainda que se caia, não importa onde, não se deve ter medo, nem estar ansioso. Devemos nos concentrar no “aqui e agora”, não economizar energia: “tudo deve provir do aqui e agora”. Deve-se mover o corpo naturalmente, automaticamente, inconscientemente, sem consciência pessoal. Enquanto que se utilizamos nosso pensamento, ação e comportamento se tornam lentos, duvidosos. Surgem perguntas, a mente se esgota, a consciência vacila como uma chama agitada pelo vento.

No Budo, a consciência e a ação devem estar sempre em unidade. No início do treinamento no aikido, no kendo e em outras artes, se repetem os wasa, as técnicas e os katas, as formas. São repetidas sem cessar durante dois ou três anos. Assim, também os kata e os wasa, formas e técnicas, se convertem em um hábito. No começo para praticá-los devemos nos servir da consciência pessoal. O mesmo ocorre para tocar piano, tambor ou guitarra, por exemplo. Ao final é possível tocar sem a consciência, sem apego, sem servir-se dos princípios. Pode-se tocar naturalmente, automaticamente. É possível criar algo novo por esta sabedoria. Da mesma maneira ocorre em nossa vida cotidiana. Isto é o Zen, o espírito do Caminho.

As grades obras de arte foram criadas para além da técnica. No mundo da tecnologia e da ciência, os grandes descobrimentos superam os princípios e as técnicas. Estar ligado a apenas uma ideia, a uma categoria, um sistema de valores é uma concepção falsa, contrária as leis da vida e do Caminho. Da ideia a ação se deve obter a verdadeira liberdade. No zazen, tanto no início como no final, a postura é o mais importante, porque todo nosso ser se encontra nela, em totalidade.

No Zen, como no Budo, se deve encontrar a unidade direta com a verdade autêntica do cosmos. Deve-se pensar mais além da consciência pessoal, com nosso corpo inteiro e não apenas com o cérebro. Pensar com todo o corpo.

Eis aqui um poema sobre a essência do arco e flecha, o segredo do kyudo:

 A tensão da tensão

Meu arco está completamente tenso

Aonde vai a flecha na distância?

Não sei

 E aqui um novo poema sobre o segredo do kendo:

 Não se deve pensar

No antes e no depois

Para frente, para trás

Somente a liberdade

Do ponto médio

Também este é o Caminho. O Caminho do Meio.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Fábio Fonseca disse:

    Belo trabalho Ana!Muito grato.Bj!!!

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    1. orderfromnoise disse:

      Vamos trocando experiências Fábio…e divulgando esse “presente” que são as artes marciais

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