Zazen: a postura que reflete o universo Parte II

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Foto ©Ricardo Borges

Ana Calazans

Segunda e última parte do texto em que descrevo conceitos ligados ao zazen Soto que ajudaram a formar minha  prática. Leia a primeira parte aqui. 

 

Hishiryo

Costuma-se repetir que a postura correta promove o espírito (ou mente) correto. Mas, comigo nem sempre é assim. Alcançar a mente hishiryo, àquela que pensa por via do não pensamento ou a “dimensão do pensamento sem consciência”, me pareceu no início algo profundamente esotérico.  Ocorre que o Zen não tem nada de obscuro; essa impressão se deve a peculiar gramática doutrinária, a forma dos mestres se expressarem, que inclui a tautologia e a metáfora.

É difícil não se agarrar aos pensamentos, não julgá-los, não seguir seu curso ou então não formatá-los segundo uma lógica especifica, porque fazemos isso há muito tempo; a “natureza” de nosso psiquismo, de nossa subjetividade, é essa, aprendemos desde muito pequenos a pensar assim. Mas no zazen temos de deixá-los surgir e ir embora. Não importa se for um pensamento maluco, genial, um pensamento bom ou ruim; fique empoleirada em cima de um muro imaginário em sua cabeça e veja-os passarem, não fique nem rejeitando, nem se apegando a eles, não julgue, não dualize. Traduzi mês passado Zen e Artes Marciais[1] do Taisen Deshimaru e no livro há um trecho que para mim resume de forma muito precisa, e poética, o zazen:

O reflexo da lua sobre o rio não se move, não flui. Somente a água passa. No zazen, não deveis permanecer sobre um pensamento. […] Desta maneira podereis encontrar a substancia do ego. No início, se pensais com vossa consciência pessoal, deixai passar. Depois, o subconsciente aparece. Deve-se também deixar passar. O subconsciente também se esgota. Assim, algumas vezes se pensa, algumas vezes não se pensa. Depois, a mente é pura como a lua, como o reflexo da lua que permanece sobre a água do rio.

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A lua de outono em Tamagawa, obra do gravador japonês do século IXX Hiroshige

Pensando e vivendo com todo nosso corpo, concentrados na postura, despertos a cada instante, para além do tempo e do espaço, quem sabe, poderemos passear pelos países e paisagens de nosso inconsciente e por fim poder acessar nossa natureza original. No Shobogenzo de Dogenestá escrito: “O que é o zazen? Estar no instante presente, mais além de todas as existências do universo, alcançar a dimensão de Buda e viver nesta dimensão. Zazen é unicamente isto: para além dos budistas e dos não budistas é penetrar nas profundezas da experiência do Buda”.

Ku

O “conceito” de Muga é importante no Zen. É a essência do desapego, do deixar ir: sem ego, sem Deus, sem parceiro, sem posses, sem nada. A liberdade do zazen para mim é também solidão; uma solidão assombrosa e eterna – fazer zazen é “praticar a eternidade aqui e agora”. Os mestres dizem que o verdadeiro[2] zazen é como o espelho que reflete todas as formas e todos os fenômenos, mas quando eu estou sentada o primeiro reflexo (e a sombra) que vejo é o meu.

 Muga está ligado a Ku, o vazio. Ku é o Sunyata sânscrito e reflete não a ausência de algo, mas a ideia de relatividade da existência, que está vinculada tanto a causalidade como à relação com todas as outras existências em uma cadeia sem rompimentos. Está também ligado à mudança, aMujo, a impermanência. Sunya quer dizer relativo, interligado, dependente. Em zazen entramos em contato com Ku, tomamos “consciência” de que mesmo seguindo Muga somos parte de algo assombrosamente belo e imenso: o corpo de Buda. Percebemos que a hierarquia é uma das maiores ilusões do dualismo. A moral do Zen é absolutamente heterodoxa: ele depurou ainda mais a tendência pouco formalista do Mahayana. “Se cada coisa pode ser o Caminho, a verdadeira felicidade, ninguém pode saber o que realmente representa o bem ou o mal”, diz Deshimaru. O Zen da Escola Soto não é nem maniqueísta, nem sectário. Também não é dogmático; para mim ele estimula a busca de uma “religião” privada.

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O zazen revela nossa natureza essencial, afia a espada de Ku, àquela que corta o ego

 Genjo

Genjo é o poder e ele só é obtido com a prática contínua do zazen mushotoku. A minha forma de apreciar Genjo é tendo a consciência imediata de quem sou; não a persona social, ou a idealizada por meu ego, mas alguém que se parece muito com a menina que fui por volta dos seis anos. Quando estou em prática rotineira não me sinto dissociada. É como se eu soubesse  qual é minha verdadeira natureza, intuitivamente e automaticamente. Genjo destrói o medo e “A doutrina do não medo é como o rugir do leão, dilacera o cérebro dos cem animais que o ouvem”.

……

No ShodokaO Canto do Satori Imediato[3], um conjunto de poemas escritos por Yoka Daishi (séculos VII-VIII), o autor e seu comentador, Deshimaru, descrevem o zazen como uma ponte entre mundos que dissolve o tempo e o espaço. “A postura do zazen possui o universo inteiro, inclui todas as contradições. Um único zazen pode cortar todo seu carma”.

A concepção do ilimitado de Dogen também subverte o padrão de tempo e espaço: “Se você pratica o zazen um único dia, inteiramente, profundamente, aqui e agora, é como se você praticasse o zazen há cem anos e ajudasse os outros há cem anos”.

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Kendo, a arte por excelência do Budo e do Bushido japonês, encarna a essência do zazen. Foto do site http://rekishinihon.wordpress.com

Por fim, um trecho de Zen e Artes Marciais de Deshimaru que pode soar familiar a muitos de nós.

È evidente que o pensamento consciente é importante na vida corrente e não se pode fazer com que desapareça. Mas algumas vezes ocorre de se ter a experiência de agir sem pensar, sem consciência, sem ego, espontaneamente, como, por exemplo, na arte, no esporte, ou em qualquer outro ato em que estejam implicados corpo e mente. A ação se produz espontaneamente, antes de qualquer pensamento consciente. É uma ação pura, essência do zazen.

________________________

 

[1] Zen et Arts Martiaux , na edição francesa original da Ed. Seghers e The Zen Way to the Martial Arts, na edição Americana da Ed. Arcana.

[2] Não dualizar, não julgar é um dos preceitos do Zen, no entanto é comum nos textos a utilização – mesmo que parcimoniosa – de adjetivos, pois é muito difícil expressar-se sem emitir um juízo de valor.

[3] Editado no Brasil pela Cultrix/Pensamento; edição esgotada.

 

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