Mestre Shi Dejian Explica o Chanwuyi

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Mestre Dejian pratica Chanwu na Montanha de Sanhuangzhai. Foto: National Geographic

Mestre Shi Dejian é o décimo oitavo sucessor da tradição Shaolin Chanwuyi, que reúne o Budismo Chan, a Medicina Tradicional Chinesa (Yi) e o aprendizado marcial (Wu). O Chanwuyi é um ramo do Chan que foi preservado na Yonghuatang, uma das escolas doo Mosteiro de Henan. Por séculos seus princípios permaneceram desconhecidos para muitos, sendo transmitidos como um saber esotérico a um círculo muito restrito como forma de escapar à perseguição política.

Para o Chanwuyi, o Wu, a arte marcial, é meditação em movimento; praticar Wu é a porta para entender o Chan, o caminho para buscar a virtude, o autoconhecimento e a iluminação. Mas, para alcançar o mais alto nível na arte marcial Shaolin, o discípulo tem que, necessariamente, possuir um bom conhecimento filosófico e científico do Chan, segundo Dejian. Isso significa que ele tem que treinar sua mente de forma a moldar seu caráter e obter um conhecimento profundo de sua alma e de seu corpo.

O princípio básico do Chanwuyi é melhorar a saúde física e psicológica através do Chan e de Wu. O Chanwuyi é uma cultura unificada; é um conceito, e não a combinação de três conceitos diferentes.

Em breve o blog publicará um artigo panorâmico sobre o Budismo Chan e o Chanwuyi, bem como as anotações de uma entrevista com o Mestre Xingxing, mentor do mestre Shi Dejian, sobre o mesmo tema.

Em 2008, o Mestre Shin Dejian foi convidado pela Universidade Chinesa de Hong Kong a proferir um ciclo de palestras. A seguir o resumo delas traduzido por mim – com pequena edição – publicado originalmente em inglês no livro The Shaolin Chanwuyi: A Chinese Chan Buddhism, de Agnes Suiyin[1].  

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 O Chanwuyi é uma prática que combina o budismo chan, o wushu e a medicina. O Chanwuyi pode ser alcançado através da prática diária, vivendo, ao caminhar, sentar e deitar e não apenas em meditação sentada. Chanji é Qiji, que equivale à vida humana.  A vida é compreender e aplicar [o ensinamento] em si mesmo, para melhorar o funcionamento do cérebro e para dirigir a alma. A prática do chan à maneira Shaolin visa melhorar a qualidade de vida e a saúde das pessoas para que eles possam viver felizes.

Muitas pessoas praticam o shaolin wushu atualmente e há apresentações em todos os lugares, o que leva a uma concepção equivocada. Monges shaolin praticam wushu não pelo combate em si, mas como um meio de desenvolver um caráter virtuoso e servir a comunidade com um coração compassivo. Aqueles que praticam wushu para se divertir, ou para ganhar a vida com seu desempenho, não são monges shaolin autênticos. Em suma, a prática de wushu tem o mesmo sentido da prática do chan, razão pela qual o Chanwu é uma espécie de wushu.

O Chan Treina a Mente

O budismo é a mais completa e definitiva filosofia do conhecimento sobre a vida e o viver.  Buda significa compreender e aqueles que entendem podem se tornar um Buda. Com base no conhecimento da natureza e da mente humana desenvolve-se uma perspectiva positiva em relação à vida e ao universo. O ramo chan é um budismo que foi moldado com a incorporação de características chinesas; desde que Bodhidharma trouxe o budismo para a China, a religião se espalhou por gerações de mestres, o que permitiu a incorporação da riqueza das filosofias do confucionismo e do taoismo, bem como as ideologias sociais e culturais dos diferentes períodos históricos e, assim, tornou-se um padrão para que as pessoas desenvolvessem um caráter virtuoso.

A essência do budismo chan é a prática da sabedoria e da virtude[2]. A sabedoria pode desbloquear a inteligência e ensinar até mesmo ao estúpido, de modo que as pessoas possam crescer fora da estupidez e tornarem-se mais sábias. “Aqueles que fazem os outros sábios são sábios, e aquele ou aquela que ​​faz de si mesmo sábio tem clareza de espírito.”

Temos que ter a sabedoria para compreender a sabedoria dos outros e também a sabedoria para compreender a sabedoria do nosso eu profundo. Este último é especialmente importante e muitas pessoas não percebem isso.

Isto ocorre porque um indivíduo possui não só um eu subjetivo, mas também um eu objetivo e um eu real. O eu subjetivo é propenso a ser complacente; o eu objetivo é propenso a ser influenciado por anseios e desejos. Para que nos tornemos nosso verdadeiro eu, precisamos limpar nossas mentes e ver-nos como somos realmente, para que possamos ajudar a nós mesmos. “Se alguém almeja não ter desejos é preciso primeiro doar-se a si mesmo e fazer as coisas certas, independentemente do que os outros possam dizer.” Não devemos ser indecisos, mas estarmos sempre prontos para fazer caridade e evitar o que não é correto.

Devemos ter um coração bondoso para fazer o que deve ser feito e contribuir para a nação e o povo. A prática chan é sobre a auto reflexão através de coisas cotidianas. Existem dois tipos de reflexão: a interna e a externa. Há também dois tipos de prática: a interna e a externa. A reflexão interior é observar o próprio eu e a exterior é observar o mundo exterior e as outras pessoas. A prática interna é treinar a si mesmo, enquanto a prática externa é a de melhorar a si mesmo por meio da interação com outras pessoas, por meio da influencia do ambiente externo, eliminando assim pensamentos negativos dentro da própria mente, de modo que ela possa tornar-se pacífica, clara, e, portanto, possa expressar nosso verdadeiro eu.

Chanwu (Arte Marcial Chan)

O Chanwu é um estudo com teorias e métodos bem sedimentados, não se restringe a uma série de movimentos ou boxe. Isto é o que faz o Chanwu diferente de outros tipos de wushu. O wushu se concentra no combate, mas o wuxue (o conhecimento sobre artes marciais) não é intimamente relacionado com o combate. No Chanwu tentamos compreender as reações que ocorrem em nossos cérebros, pensamentos e mentes para entender a nós mesmos e ao sentido da vida. Assim, o propósito de praticar Shaolin Chanwu é nos conhecermos e compreendermos a verdade.  O foco principal é o interno, mais do que a prática muscular e dos membros. Prática interna significa prática interior, não exterior. Esta prática interna é a prática da mente, a mente precisa estar sempre tranquila. Quando a mente está tranquila, o Qi[3] é forte, e Qi forte é energia interna. Somente quando a mente está em paz é que o Qi pode circular. Assim, para praticar internamente é preciso treinar a mente para que ela se torne a mente de uma “alma clara”, algo que não pode ser visto ou tocado.

A mente torna-se o mestre; se você tem pensamentos na sua mente, seu corpo vai se mover. Se você olhar para a esquerda, o olho vai para a esquerda, quando você olha para a direita, seu olho vai para a direita… Isto é o que se quer dizer com a mente ser o mestre – os olhos são os primeiros a ir e o corpo e os membros vão a seguir. A mente  movimenta o corpo e todo o corpo se move, e os membros precisam se mover todos de uma vez  também, então esta é uma escola de conhecimento. Se você não tem as habilidades para mover os olhos, corpo e os pés ao mesmo tempo, isso não pode ser chamado de wuxue, mas apenas movimentos brutos para atingir as pessoas com os punhos, é apenas um combate.

Mas quando você tem as habilidades para mover seus olhos, corpo e pés de uma vez, isso é diferente, porque tal habilidade requer o uso da mente, pensamentos da mente, ela reflete um estado de consciência entre o cérebro e a “alma clara”. Quando você pensa sobre algo, sua mente já está lá, o que é chamado de Xinyi . É preciso controlar o Xinyi com o próprio Dantien, por isso é preciso conter a Xinyi dentro do Dantien. Para controlar Xinyi, primeiro é preciso colocar a mão em cima do Dantien e depois  observar a relação entre o Dantien e o nariz. O objetivo desta prática é acalmar; quando nos acalmamos começamos a ser capazes de sentir. Esta é a prática interna.

Qualquer um que pratica wushu é diferente de alguém que não o faz. A pessoa que pratica wushu possui um Qi e uma circulação fortes. Pessoas que não praticam wushu são normais, mas aqueles que o fazem estão acima do normal. Isso ocorre porque usamos nossas energias todo o tempo para as atividades diárias, como trabalhar, caminhar, ler, conversar, mas se praticamos wushu podemos recarregar essa energia. É através da prática repetida, da observação dos órgãos internos e da observação da relação entre o Dantien e o nariz que podemos começar a entender o nosso próprio corpo. Este é o Caminho de Buda, a maneira de praticar a sabedoria.

No Chanwu Shaolin é preciso acalmar a mente. Se sua mente está calma seu corpo será preenchido com força e Qi, com energia interna. Se a sua mente não está tranquila, o Qi será interrompido e não haverá energia interna. Assim, precisamos nos ajustar persistentemente para atingir o estado de uma mente pacífica através da repetição da prática.

Se apenas se tem as habilidades externas, mas não se possui energia interna, os órgãos não têm Qi suficiente e não há nenhuma energia interior. Energia interior significa basicamente uma mente pacífica, quando a mente está tranquila o Qi é suave e a força aparece.  Quando a mente está quieta podemos observar como aumentar a energia interna, considerar as mudanças na respiração no trajeto do nariz para o Dantien, estar atentos quando expiramos pelo nariz para devolver o Qi para o Dantien… Energia interna é a prática de Qi; quando há Qi há força. Quando há Qi a circulação sanguínea é suave; o Qi facilita a circulação do sangue e a circulação sanguínea, por sua vez, produz Qi. Esta é a forma como podemos promover a nossa prática de saúde. Se a prática da energia interna é combinada com a prática das habilidades externas isto é o que se entende por praticar tanto o interior e o exterior.

 Chanyi (Medicina Chan)

Chanyi é uma escola de conhecimento que se concentra na melhoria e manutenção da saúde, em aprender a proteger seu próprio corpo, para em seguida curar outros corpos doentes. Antes de falarmos sobre a cura é preciso primeiro falar sobre a medicina preventiva. Shaolin e wushu complementam um ao outro. Através da medicina aprendemos sobre o corpo humano, incluindo os membros, os órgãos, o Qi e o sangue. Através da compreensão da função dos órgãos e da prática combinada de exercícios pode-se aprender a usar melhor o corpo.

Existem dois tipos de exercícios: um é estático e tem como objetivo ajustar a mente e o Qi, acalmando-se para observar a si mesmo; o outro envolve a coordenação da mente e do corpo: se a mente quer se mover, o corpo se move. Esta é a chamada coordenação da estática e da dinâmica. Primeiro iniciamos com o estático e depois de praticar ele se torna dinâmico. A dinâmica combina com a estática e com a respiração natural, o que é chamado de “respiração dinâmico-estática”.

O casamento da dinâmica e da estática é o princípio médico básico para a saúde do corpo. Dessa forma, a fim de se estudar medicina é preciso também a prática de wushu, pois é somente através dos exercícios que se começa a sentir e a entender. Eu insisto que o conhecimento médico tem de ser complementado pela prática de wushu. Para praticar a energia interna é preciso combinar a mente e os pensamentos, de maneira a exercitar a complementaridade das forças do coração, fígado, baço, pulmões e rins. Antes as pessoas não conheciam este método porque esta é uma prática interna das cinco formas.

Quando o coração se movimenta a coragem vem, quando o fígado se movimenta a chama vem, quando o baço se movimenta a força vem. Quando os movimentos do pulmão são como sons de trovão, o fluxo de energia tem um pico. O pico do fluxo aumenta com a profundidade da respiração; quando a respiração é profunda o Qi é forte. Quando o Qi do rim se move, os movimentos tornam-se rápidos. De acordo com as teorias médicas, o rim não é vazio, é cheio. Um rim completo significa energia suficiente, e isso significa movimentos rápidos. Quem tem problemas renais anda sem força, não consegue andar rápido.

Assim, o espírito da prática do Qi interno é a pratica de uma respiração voltada para o Qi. Já a prática externa significa treinar a tendões, ossos, pele, carne e sangue; a prática interna significa o treino dos órgãos internos. Qualquer um que deseje aprender medicina deve entender o que é o Qi e deve saber que a vida é essencialmente respiração! E ela é naturalmente manipulada pela mente, que ajusta os órgãos internos de maneira a dirigir o Qi. O ajuste do corpo é chamado de a unidade de Wuyi. Ao praticar wushu, a pessoa não precisa praticar habilidades de combate. Se alguém ganha por meio do uso de mera força, isto é semelhante a oprimir os fracos usando força bruta. Mas se alguém quiser alcançar um estado em que consiga vencer a força bruta mesmo sendo mais fraco é preciso usar a sabedoria, o que significa o uso de wuxue. É por isso que a prática de wushu é um meio para a prática da medicina.


[1] SUIYIN, Agnes. The Shaolin Chanwuyi: A Chinese Chan Buddhism. Publishing House,  2010.

[2] Mestre Dejian muitas vezes expressa a ideia de “criar a própria vida, de que a vida está em nossas mãos”, e que os esforços importam mais do que sorte. Nota do autor.

[3] Optei por utilizar a grafia original da expressão, ao invés do uso mais comum no Brasil “chi”

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