Tradução Ryotan Tokuda – Prática e Iluminação não são uma Dualidade

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A Grande Onda de Kanagawa, do pintor Hokusai, Período Edo: as ondas são a água e  a água não está separada das ondas

Tradução Ana Calazans

Mestre Eckhart[1] disse: “Em Deus nada mais existe além do Uno e o Uno é indivisível, e aquele que toma outra coisa que não o Uno, toma uma parte e não o Uno: Deus é um só, e aquele que busca e deseja algo mais do que isso não é Deus, é uma parte, seja em repouso ou no conhecimento, ou em qualquer coisa que seja diferente da vontade de Deus, é para si mesmo e não é nada. “(Sermões Alemães – Sermón Got hât die armen gemachet durch die rîchen, tradução francesa de Jeanne Hancelet-Hustache).

Mestre Eckhart diz claramente que Deus é UM. No Bendowa, capítulo do Shobogenzo, Mestre Dogen escreve que fazer uma distinção entre a prática e a realização (o despertar, a iluminação) não é o verdadeiro budismo. No verdadeiro budismo prática e realização não são mais que uma só e a mesma coisa.

Quando nos sentamos em zazen estamos sentados na pureza e na transparência. Nesse momento o despertar está completo e somos, nesse instante, o próprio despertar.  É inútil procurar qualquer coisa diferente, seja um estado particular ou algo fora de nós mesmos.

Alguns começam a praticar com um propósito, mas não encontram a paz em sua prática. Não sabem que o desejo que os move é a fonte de seu desconforto. Não fazem mais do que preencher um barril sem fundo. Mestre Dogen diz que é muito raro encontrar alguém que está no caminho. A maioria das pessoas diz que não consegue alcançá-lo ou encontrá-lo. Eles se parecem com peixes nadando no oceano e que exigem água aos gritos.

Não devemos praticar zazen como homens comuns, mas como Budas. Podemos ser livres, mas não somos porque pretendemos ter proveito nessa prática.

Se a prática e a iluminação estão separadas elas podem ser vistas. Mas, se elas se tornam um, de maneira que a prática seja a iluminação e a iluminação seja a prática, então já não se pode mais distingui-las. Pode-se cortar tudo com uma espada, mas a espada não pode cortar a si mesma. Nós gostaríamos de sentir, ver e tocar o despertar, a iluminação. Mas isso que sentimos, vemos e pensamos do despertar é certamente outra coisa. Se realmente fazemos a experiência atingimos diretamente a intuição. Todo o sentimento de separação então cessa e realizamos a unidade

Caso se tenha a consciência do despertar, esta consciência torna-se uma fonte de doença. Devemos esquece-lo, inclusive se este despertar é exato. A um homem que havia perguntado ao mestre Kodo Sawaki se ele havia atingido o despertar, este respondeu: “Eu nunca fiz uma coisa tola como essa.” Não se deve parar nunca; deve-se sempre continuar o zazen.

No Bendowa Mestre Dogen escreveu que a prática e o despertar não tem começo nem fim. Mesmo quando falamos de pratica e despertar eles não são mais que uma e a mesma coisa.  É por isso que todos os Budas e todos os patriarcas não pararam de praticar. O Buda Shakyamuni praticou em um bosque por seis anos e Bodhidharma em uma gruta por nove anos. Mas eles não praticavam com o objetivo de obter a iluminação. Muitos se sentem decepcionados quando lhes é dito que a pratica e o despertar nunca têm fim. Quando não se compreende esse ponto essencial é difícil praticar o zen por muito tempo.

Mestre Eckhart também diz: “Eis que, na medida em que Ele é Uno e Simples Ele se aloja nesse Uno, que chamo de cidadela da alma, e se não é assim não há maneira de entrar, só assim penetra e permanece em seu interior. Essa é a parte onde a alma é igual com Deus e nenhuma outra “. (Sermón Intravit Iesus in quoddam castellum et mullier quaedam Martha nomine, excepit illum in domun suam, El fruto de la nada y otros escritos, Trad. Amador Vega Esquerra, Siruela, Madrid, 2001).

Mestre Eckhart emprega o termo “cidadela”. No Zen usamos o símbolo do círculo. Mas como entrar no círculo vazio ou na cidadela? Devemos esquecer de nós mesmos e nos esmagar. Poderia se acreditar que alguma coisa fora de nós foi acrescentada, mas claramente Mestre Eckhart diz: “a cidadela da alma.” Nesta cidadela da alma nenhum caminho, nenhuma via, nenhuma porta nos leva. Não se pode chegar lá a não ser pelo Uno e pelo Puro.

Nós nos perguntamos: “Por que apenas sentar-se?” Para quê? Mas sentar-se assim não tem causa. Sentar corretamente quer dizer simplesmente sentar. Enquanto ainda tivermos a necessidade de uma causa ou de um fim não iremos encontrar a paz no zazen. Procuramos algo mais, algo que poderia ser encontrado “atrás” do zazen e, de repente, perdemos o Uno. Somente quando não temos necessidade é que encontramos a paz.

Não se deve acreditar que dois se juntam na união e, por isso, se convertem em um. O Um é um e nunca foi dividido. Esta é a experiência do zazen. Esta prática nos dá a postura de um Buda, uma respiração de um Buda e mente de um Buda.

No Capítulo Kaiin zammai (“O samadhi do selo do oceano”) do Shobogenzo, Mestre Dogen escreve que todos os rios correm para o oceano. Todos os rios, por mais diferentes que sejam, se tornam um. Ele também diz que quando as ondas do oceano são levantadas pelo vento morrem na areia da praia. Deste ponto de vista, vemos ondas que nascem e morrem, vemos um antes e um depois. Contudo, no samadhi não vemos apenas as ondas, vemos também a água do oceano. Diz-se que as ondas são a água e que a água não está separada das ondas. Se comtemplamos o mar observando a água, não existirá aparecimento nem desaparecimento e o oceano não irá diminuir nem aumentar. Eis aqui o samadhi do oceano. Praticar zazen é alcançar e conservar este samadhi.

*O texto de Mestre Tokuda foi traduzido do espanhol a partir do site Huellas del Zen. 

 

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Mestre Ryotan Tokuda

Ryotan Tokuda nasceu em 1938 em Hokkaido, Japão. Foi discípulo de Kodo Sawaki e de Nakagawa Soen. No final dos anos 60 veio para o Brasil com a missão de divulgar o Soto Zen. Criou grupos de meditação, institutos de Medicina Tradicional Chinesa e sanghas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Fundou o primeiro mosteiro zen budista da América Latina, o Morro da Vargem no Espírito Santo, e os mosteiros Pico dos Raios e Serra do Trovão, ambos em Ouro Preto (MG). Mora atualmente na França.

Com uma inclinação profundamente mística, Mestre Tokuda tem particular interesse pela mística cristã, especialmente por Mestre Eckhart. Costuma tecer seus comentários sobre Dogen a partir da ótica do místico alemão e deste último sob uma leitura de Dogen. “Descobri alguns textos de Mestre Eckhart e tenho a impressão de ler puro zen. Quando se atravessa a obra de Mestre Eckhart como uma cadeia vertical e a de Mestre Dogen como uma trama horizontal, aparece um lindo quadro”.

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[1] Filósofo e místico dominicano alemão, século XIV.

 

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