Tradução Kodo Sawaki – Bem e Mal

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Tradução Ana Calazans

Clique para ver o original em inglês

A raça humana se distingue por sua inteligência e sua destreza manual. Com elas, os homens podem construir todos os tipos de máquinas. Eles também gostam de lutar entre si e usam a linguagem com habilidade. Em resumo, aos seres humanos foram dados muitos talentos. Infelizmente, parece que muito poucos os usam com sabedoria.

Diz o ditado: “Não use mal seus dons.” Eu diria mesmo que é essencial fazer todo o possível para usar nossos talentos para o melhor. Um mentiroso faz mau uso de seus talentos, o mesmo acontece com um agiota, e assim também faz o homem com três conjuntos de casas de férias e amantes! Cada um de nós a nossa própria maneira é um exemplo do mau uso do talento. Começando por mim: quando eu olhar de perto verei que sou medíocre também. Aqueles cujos caminhos são sem erros são extremamente raros.

Fazer o melhor de suas habilidades: esta é a maneira de se identificar com Buda ou Deus.

Eu diria que antes de mais nada, você deve conhecer a si mesmo intimamente. Em seguida, manifestar o melhor de você e cortar as paixões, que nos inclinam a nos expressar de maneira mesquinha. Assim, mantendo afiada a espada da sabedoria, subimos o nosso próprio cume, o pico de luz que contém todo o universo. “Tomar pose da espada da sabedoria” significa levar as capacidades humanas a seu potencial mais elevado.

Um dia, há muito tempo, um viajante viu Shariputra urinar em um campo. O homem que ele viu tinha uma experiência tão poderosa que o viajante juntou as mãos e fez Sampai. A história diz que naquele instante ele viu a verdadeira natureza de Buda.

Parece que simplesmente ver Shariputra na postura de urinar inspirou naturalmente um profundo respeito. Se estamos fazendo zazen ou lendo sutras, devemos fazê-lo com respeito. O mesmo vale para todos os nossos gestos cotidianos, como comer ou urinar, aos quais geralmente não prestamos muita atenção. Desta forma, benefícios infinitos irão fluir de cada instante de nossa vida diária – como dragões e elefantes que vibram e brincam sem nunca terem precisado ouvir o Dharma.

Quando eu olho para trás na minha vida vejo que eu poderia ter sido qualquer coisa. Quando eu era jovem pensei em fazer muitas coisas diferentes. Foi apenas acaso eu me tornar um monge e dedicar todas as minhas energias a isso? Eu poderia ter trabalhado nas ferrovias. Durante todo o dia lançaria minha picareta para cavar a terra; e quando eu saísse à noite beberia muito saquê. Eu teria gostado desta vida, uma vez que teria sido a minha vida. Eu poderia ter sido um cantor (eu não sei se iria ser bom), ou um contador de histórias. Eu poderia ter me tornado qualquer coisa, um sujeito bom ou um bandido. A vida é como um chapéu de camponês: ele pode conter isto ou aquilo, tem muitos usos. O mesmo vale para ilusões ou satori.

O Monte Fuji é considerado uma grande montanha, mas visto do topo do Himalaia parece muito pequeno. Eles dizem que o Pacífico é enorme, mas ele é apenas uma parte do globo. Visto da perspectiva do universo ele se parece com uma pegada encharcada. (Isto não é incomensurável, sabemos quão profundo ele é). É difícil imaginar o homem como um animal minúsculo. Vista com um microscópio, uma ameba parece um mergulhador nadando no fundo do mar. Ela não pode sequer ver as bordas da lâmina onde se move, para ela é tudo tão grande quanto o Oceano Pacífico. Dizer que algo é grande ou pequeno é olhar com uma visão defeituosa. Cabe a nós a olhar para o nosso mundo de forma diferente.

O que realmente os faz felizes, esses pequenos seres humanos em seu minúsculo pequeno mundo? Eles gostam de se divertir e receber presentes. Eles consideram um nascimento um evento feliz (embora possa ser um desastre se o bebê for deformado ou se tornar um inútil), e o casamento motivo de parabéns (embora eles não saibam se o noivo não vai acabar se tornando um bêbado incurável). Alegria e sofrimento são conceitos relativos, indefinidos e enganosos. Nada permite a qualquer pessoa dizer com alguma certeza que este evento é feliz e que aquele outro é infeliz. O bem carrega em si o mal, e vice-versa. Assim:

A verdade é sem fundamento;

a raiz da ilusão está vazia.

Ao abandonar ter e não ter,

o não-vazio se torna vazio.

O universo inteiro está contido nesses dois versos.

O bem e o mal nunca existiram. Assim, a observação de Shinran permanece verdadeira:

Não seja orgulhoso da virtude;

não tenha medo do mal.

Todos os seres humanos, sem exceção, não são nem bons nem maus.

Kodo Sawaki – Trecho de ensinamento contido em The Notebook of Kodo Sawaki

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