Artigo Traduzido – Zen e Saúde

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Mariano Giacobone

Começamos por dizer que o zazen não é um método terapêutico, mas sua prática produz uma série de mudanças e melhorias profundas na estrutura e funcionamento do organismo. Também não é uma ginástica para conseguir alguma habilidade especial, mas uma postura de despertar e de abertura da consciência.

Seus efeitos sobre a saúde em geral são inegáveis ​​e têm sido investigados pela ciência, particularmente pela Komasawa University, no Japão, onde o Mestre Taisen Deshimaru e o Professor Y. Ikemi  realizaram inúmeros testes e medições também corroboradas por outros pesquisadores.

Apesar da ação específica do zazen ser no nível da consciência, pois é uma postura profundamente espiritual, a consciência não é diferente do corpo e inclui a atividade mental e emocional. Veremos com mais detalhes que as mudanças que ocorrem na consciência influem diretamente nos diferentes níveis de vibração, ou seja, no plano físico, no da energia (chi), no mental e no emocional.

Durante a pratica do zazen os três pontos fundamentais que merecem ênfase são a postura do corpo (camada física), a respiração (nível energético) e a atitude do espírito (níveis mental e emocional). Vale ressaltar mais uma vez que estas categorias são explicativas, na verdade não há separação entre as três. São aspectos de uma mesma realidade. Você tem que entendê-las em sua totalidade.

O NÍVEL FÍSICO

A principal característica do zazen é que ele é uma posição muito estável. A posição de lótus é a mais estável e equilibrada que o homem pode adotar por um longo período de tempo. Existe uma relação direta entre as posições adotadas pelo corpo e o tipo de pensamento que é gerado. Obviamente, uma posição estável corresponde a um pensamento estável, ou, o que é o mesmo, a estabilidade e equilíbrio emocional e psicológico. A prova é que a prática regular de zazen acalma a mente e permite o controle das emoções.

Zazen transforma e melhora a imagem corporal interna (e também a externa).

Só o fato de se concentrar na postura e respiração já expande o número de sinais que são recebidos e geralmente passam despercebidos, como, por exemplo, a posição da coluna vertebral, o centro de gravidade e equilíbrio (relativamente ao espaço), o tônus ​​muscular, o estado dos órgãos internos (dores, avarias, bloqueios, etc.). Esta tomada de consciência da nossa realidade interior é muito importante para prevenir e curar doenças e enfermidades que poderiam se manifestar quando já é tarde.

Nesse sentido, o zazen é uma verdadeira medicina preventiva, e mesmo curativa, permitindo que a partir de raízes profundas se possa entender e corrigir o desequilíbrio.

As costas retas são outra característica da postura zazen. A posição da coluna vertebral, que no zazen é vertical e equilibrada sobre o seu eixo, gera uma forte influência sobre o tônus dos músculos posturais e nervos da coluna vertebral, particularmente na região do pescoço e da lombar. Isto permite relaxar os músculos dos ombros, braços e abdômen, eliminando stress desnecessário, e melhorar a circulação de sangue e energia dos órgãos internos (aparelhos digestivo, urinário e sexual), fortalecendo-os.

Um antigo provérbio chinês diz: “Um ser humano tem a idade da sua coluna.”

Além disso, costas retas e erguidas é uma questão de evolução. É o que nos aproxima de Deus e nos diferencia do animal. Estar com a nuca alongada e a cabeça equilibrada sobre os ombros permite que o fluxo de sangue e energia que sobe pela coluna seja otimizado, melhorando a irrigação e a fisiologia do cérebro, e de todo organismo. Mestre Kosen repetia muitas vezes: “Durante o zazen você tem que empurrar o céu com a cabeça e terra com os seus joelhos.”

A posição do centro de gravidade é mais um fato interessante. Normalmente, o centro de gravidade de uma pessoa se encontra a cerca de três ou quatro dedos abaixo do umbigo, essa área é chamada kikai tandem, “oceano de energia”.

Quando nos sentamos com as pernas cruzadas este ponto deve estar acima do nível dos joelhos para que a posição seja estável, por isso se eleva a pélvis com um zafu. Isto também permite inclinar a bacia para a frente fazendo com que a coluna se mantenha ereta por mais tempo sem gerar tensão muscular ou distorção, já que quando o centro de gravidade está próximo do centro desta base triangular a coluna pode se alongar e permanecer em equilíbrio.

A RESPIRAÇÃO

Durante o zazen se é consciente da respiração. Ter consciência dela é tomar consciência direta de ser. A respiração é a ponte, o traço de união entre o físico e o espiritual. Conecta o mundo visível com o invisível.

Antes de tudo se trata de estabelecer um ritmo lento, forte e natural, baseado em uma expiração suave, longa e profunda, gerando uma expansão do abdômen inferior, o que além de causar uma massagem nos órgãos internos estimula a atenção através do sistema nervoso mediante um mecanismo de feedback ou retroalimentação (há uma conexão entre o kikai tandem, o pescoço e a parte mais profunda do cérebro).

O ar é expelido lentamente e silenciosamente pelo nariz, enquanto a pressão, devido à expiração, comprime com força o ventre. No final da expiração a inspiração é feita naturalmente.

Estudos da Universidade de Tóquio  feitos pelos Professores Y. Ikemi e Y. Sugi demonstram os efeitos metabólicos profundos que ocorrem no corpo devido à respiração feita durante zazen.

Em primeiro lugar, a expiração ampla e profunda permite expulsar o ar residual constituído por ar viciado, inútil para a oxigenação. Este constitui um terço da capacidade pulmonar (cerca de 1200 ml.). Ao mesmo tempo se diminui o consumo de oxigênio e se aumenta a oxigenação do pulmão, o que reduz consideravelmente o trabalho da respiração (diminui o ritmo e aumenta a amplitude).

Além disso é fortalecida a energia vital (chi) dos pulmões. Na medicina chinesa o pulmão é o governador da energia e a sede da coragem e da capacidade de concentração. Do ponto de vista da cura é de grande importância em pessoas com problemas respiratórios e emocionais. Outra observação: durante zazen o metabolismo basal diminui, baixando, inclusive, a valores inferiores aos do sono. Um dado interessante é o de que na natureza as espécies que vivem mais são aquelas com um metabolismo mais baixo (tartaruga, elefante…). Este estado de repouso orgânico tem enormes implicações para a saúde em geral. Afeta o sistema nervoso, equilibrando os sistemas simpático e parassimpático (sistema nervoso autônomo ou neurovegetativo). O funcionamento das glândulas endócrinas é harmonizado. A produção de resíduos pelos pulmões, pele, rins e fígado é reduzida, otimizando, assim, os sistemas de purificação do corpo.

Além disso, devido aos músculos locomotores e posturais estarem em repouso e equilíbrio, é reduzida a produção de ácido lático, que é um derivado da combustão de glicose durante o exercício (glicólise anaeróbica). Pensa-se que o excesso deste metabolito produzido por uma oxigenação muscular deficiente é a causa de dores musculares e câimbras. Seu baixo nível seria uma das causas da sensação de bem-estar que acompanha a prática do zazen.

Zazen é um gerador e acumulador de energia. Portanto, é importante para permitir que ela flua livremente.

A CONSCIÊNCIA

Atividade Sensorial

Durante zazen os sentidos são aguçados e a ao mesmo tempo se produz um equilíbrio entre eles, ou seja, nenhum predomina. Em geral, a visão é o sentido mais utilizado; de fato, a realidade que criamos é  visual, ao contrário do cão, por exemplo, que a cria através do olfato.

Na postura de meditação zen a vista perde sua predominância, está relaxada e mesmo dirigida para dentro. Isso reduz a tensão ocular das pessoas que vivem em meios saturadas visualmente. A medida que se pratica se ganha em amplitude e profundidade de campo e se facilita uma redefinição visual da realidade. Você pode ver as coisas “tal como elas são” e não apenas seu reflexo, como de costume.

O ouvido aumenta o limiar de percepção, captando estímulos auditivos que normalmente não se tornam conscientes. Além disso, o olfato torna-se particularmente sensível a perfumes e aromas. O mesmo ocorre com as sensações corporais (cinestésicas). A prática regular de zazen desenvolve uma consciência corporal aguda, o que nos permite estar cientes de qualquer desequilíbrio ou bloqueio podendo corrigi-los em sua fase inicial.

Cabe destacar que o zazen, ao contrário de outras meditações, não gera uma desconexão sensorial, ou seja, não se fica isolado do ambiente, mas também não é feito um julgamento ou avaliação dos fenômenos percebidos (agradável, desagradável ou indiferente…), pois se está em um plano supra sensorial. Isto permite uma atitude justa e imparcial, enquanto ao mesmo tempo se permanece no estado de atenção.

Assim, se pode criar uma realidade mais abrangente e harmoniosa sem depender exclusivamente da percepção limitada e ilusória dos sentidos, mas sem tampouco prescindir deles. É o caminho do meio.

AS EMOÇÕES

Hoje, um monte de pessoas sofre de distúrbios emocionais, quer sob a forma de apegos e desejos exacerbados ou de fobias, rejeições e indiferença emocional. Além disso, muitos sofrem de desequilíbrios no sistema nervoso e energético gerando emoções descontroladas ou inadequadas, alterando seu ambiente e a si mesmos.

Zazen provoca a harmonização do plano emocional a partir de sua profundidade, reequilibrando os centros neurológicos responsáveis ​​pela geração e modulação das respostas emocionais, como o sistema límbico, o lobo frontal, o sistema nervoso autônomo (neurovegetativo), etc., e por outro lado fortalecendo a energia vital e a capacidade de compreender e assimilar os fenômenos da vida diária para acalmar a mente e expandir a consciência.

A ATITUDE DO ESPÍRITO

Durante o zazen se “deixam passar” os pensamentos e todas as “construções mentais”, o que produz um repouso do córtex, particularmente do lobo frontal, a sede da personalidade, do comportamento, da fala e pensamento consciente, e uma ativação do cérebro profundo e de áreas neurais normalmente adormecidas.

As caóticas e superficiais ondas Beta da atividade cerebral consciente, vão sendo substituídas por ondas Alpha e Theta, mais profundas, mais amplas e de menor frequência. Isso resulta em calma mental e em uma expansão de consciência que não está mais ligada aos limites do pensamento dualista e do discurso consciente, o que ajuda a resolver as contradições da vida cotidiana impostas pelo pensamento desequilibrado. O Pensar é redimensionado.

O estado ativa a irrigação das camadas profundas do cérebro, melhorando a química (neurotransmissores) e a fisiologia do sistema nervoso como um todo. Muitos problemas psicológicos, como estresse, insônia, distúrbios de comportamento (fobias, depressão, transtorno bipolar, agressão, etc.), se devem a desequilíbrios na neuroquímica cerebral, a prática regular de zazen pode ajudar nesses casos.

Pesquisa realizada na Universidade de Michigan mostrou que a camada de matéria cinzenta do córtex cerebral correspondente aos corpos dos neurônios é engrossada (o oposto do atrofiada) em pessoas que praticam zazen regularmente.

Ao equilibrar as funções do cérebro em ambos os hemisférios se ampliam o pensamento criativo e a imaginação, ferramentas fundamentais para melhorar a adaptação ao meio ambiente e aumentar a inteligência. Também funções como a capacidade de foco e atenção são incrementadas e ampliadas e estas são características de uma mente superior e mais evoluída.

No Fukanzazengi[1] é dito: “você tem que pensar sem pensar, pensar a partir do fundo do não-pensar” além de qualquer dúvida e relatividades, pensamento absoluto, Hishiryo em japonês: O produto da concentração e observação durante zazen.

Este é o pensamento do Buda, a verdadeira pureza e um verdadeiro tesouro.

O retorno ao estado normal e equilibrado do corpo e do espírito.

Zazen não é um método de saúde, mas como método de saúde é o melhor.

Tradução Ana Calazans. Leia o artigo original aqui    

___________________________

[1] Parte do Shobogenzo, a grande obra de Dogen Zenji, o Fukanzazengi é um guia para o método do zazen. Foi escrito em 1227, ano em o criador da escola Soto Zen retornou da China para o Japão.

 

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