Mapeamento Digital Preserva Herança do Kung Fu

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Ana Calazans*

Após séculos de perseguição, apropriação, aculturação e declínio ao sabor dos ventos políticos, a China finalmente parece disposta a resgatar parte de uma herança mantida a duras penas graças à transmissão familiar e a discípulos fiéis. Uma iniciativa da Universidade da Cidade de Hong Kong e da International Guoshu Association está mapeando digitalmente o que antes só podia ser acessado por antigos manuais ou por via de mestres. Com o suporte de uma campanha de crowd-funding no site de financiamento coletivo FringeBacker o projeto Hong Kong Martial Arts Living Archive está documentando os estilos de kung fu da cidade-estado através da tecnologia de captura de movimento em 3D da sequência das formas em HD.

Os dados obtidos vão formar o primeiro arquivo digital para artes marciais tradicionais do mundo, com o registro das formas (katis) representativas de todos os principais estilos de kung fu de Hong Kong. O projeto vai possibilitar o acesso a uma enorme variedade de detalhes sobre os movimentos que não podem ser observados com maior acuidade na captação convencional, como a força e a rapidez aplicadas em cada gesto e transição. A ideia é preservar o que consideram um patrimônio cultural intangível por via de um catálogo digital feito a partir da análise em quatro dimensões dos movimentos dos muitos estilos que acharam abrigo e floresceram em Hong Kong nos turbulentos anos do século XX.

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Um dos maiores méritos da proposta será o de “traduzir” em imagens e dados mensuráveis um manancial de ensinamentos e tradições que permaneceram quase que escondidos sob a linguagem altamente cifrada e esotérica dos manuais. Em sua justificativa, o projeto destaca que a preservação das práticas autênticas de kung fu antes que desapareçam é uma ação urgente. “Mestres de kung fu com técnicas legendárias e refinadas estão em idade avançada e sua arte necessita ser capturada e preservada de maneira definitiva de forma a minimizar qualquer perda nessa tradução [para o ambiente digital].”

A análise usual da mecânica das formas de kung fu envolve uma visão bidimensional em um plano único, sem considerar a terceira dimensão. Com o uso da alta definição e da rapidez na captura de vídeo 3D das sequências, o registro vai incluir inúmeros dados físicos como a velocidade, torção, torque e a força e ainda uma variável negligenciada: o tempo. Isso é importante porque os diferentes estilos marciais utilizam padrões de mecânica corporal e timings diferentes, muitas vezes transmitidos de forma oral em uma linguagem recheada de termos obscuros. Com a morte de alguns mestres, muitas das sutilezas e mesmo os fundamentos de alguns estilos correm o risco de serem perdidos para sempre.

Segundo os responsáveis do Creative Media Centre da Universidade de Hong Kong, a base de dados do arquivo será estruturada em diversos tipos de mídia que ficarão armazenadas em uma espécie de léxicon (dicionário) digital dos estilos e escolas do kung fu de Hong Kong. O acesso aos dados será feito por um vocabulário de palavras chave (The Hong Kong Martial Arts Thesaurus) e por níveis de descrição hierárquica que definirão os campos de pesquisa. Os formatos serão disponibilizados em áudio, fotografias, vídeos 2D e 3D, vídeos panorâmicos e estereoscópicos (panópticos a partir de seis pontos de vista).

Um dos objetivos após a conclusão do projeto é sua divulgação em material impresso e em formatos multimídia e o desenvolvimento de aplicativos móveis. Além de fonte de pesquisa, o material irá ajudar a promover a tradição marcial em exibições e ferramentas de aprendizado. Uma contribuição inicial da Universidade da Cidade de Hong Kong possibilitou o início do projeto no verão de 2013 e os organizadores já capturaram com sucesso dados de formas dos seguintes estilos: Lam Family Hung Kuen, Wing Chun e Fujian Yongchun White Crane.

Hong Kong Meca do Kung Fu

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Ocupada pelos britânicos por 156 anos – entre 1841 (final da Primeira Guerra do Ópio) e 1997, quando foi “devolvida” à China – Hong Kong foi o destino natural e seguro dos refugiados dos inúmeros conflitos, como a guerra sino-japonesa e a Revolução Cultural maoísta, que assolaram a China no século passado.  Entre esses refugiados se encontravam alguns dos mais renomados artistas marciais do país que forjaram uma cultura muito particular e transformaram a cidade-estado na meca de vários estilos de kung fu como o Hung Kuen, Southern Praying Mantis, Fujian White Crane, Choy Lay Fut e Wing Chun.

Pelo fato de Hong Kong ser próxima da Província sulista de Guangdong (Cantão), a maior parte dos estilos que se desenvolveram na cidade – e que acabaram por influenciar o desenvolvimento de todo o kung fu chinês – são cantoneses. Foi na cidade cantonesa de Fosham, por exemplo, que nasceram o herói popular Wong Fei Hung, considerado o maior praticante de Hung Gar (Hung Kuen) de todos os tempos, e Ip Man, e que Chan Heung desenvolveu o Choy Lay Fut. Assim, Hong Kong foi primordial na preservação dos estilos mais importantes do Sul. Além disso, a cidade também acolheu alguns mestres de estilos do Norte, que se mesclaram com os sulistas para desenvolver uma tradição singular.

Longe de suas raízes e humilhados, muitos dos novos habitantes de Hong Kong viram no kung fu uma maneira de reforçar sua identidade e aliviar uma rotina penosa. A geração que se formou em seguida ao êxodo ajudou a elevar o patamar de diversos estilos ampliando e aprofundando seus repertórios e formando praticantes comprometidos. A imigração das gerações seguintes e a dificuldade de adaptação às mudanças trazidas pela modernização, no entanto, fizeram com que o interesse pela arte decrescesse nos últimos 30 anos.

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Muitos estilos caíram em declínio fazendo com que seus praticantes desaparecessem. Outros, como o Choy Lay Fut, antes o mais popular de Hong Kong, tem visto decrescer o número de alunos e é considerado pelos autores da proposta um dos casos mais alarmantes de declínio. Outros estilos populares como o Wing Chun e o Hung Kuen não estão tão bem quanto sua imagem pública sugere, havendo uma queda progressiva no padrão dos praticantes.

Para os organizadores as artes marciais de Hong Kong chegaram a uma encruzilhada e, com a maioria dos mestres em idade avançada, há um perigo real de perda cultural. “Temos uma janela de talvez cinco a dez anos para documentar esse legado antes que estes mestres se tornem muito idosos. Eles são, na verdade, os últimos ‘mestres’ de Hong Kong,” registra o texto da proposta que tem como lema “Herdar o passado e inspirar o futuro!”.

A chave do problema segundo eles é a dificuldade extrema em dominar um estilo de kung fu pois, além de requererem muitos anos de prática física dedicada, envolvem a internalização de “conceitos e mecanismos complexos no uso do corpo humano, que exigem o máximo esforço não apenas físico, mas intelectual”. “Dado o curto período de atenção da maioria dos alunos de hoje, a triste verdade é que os mestres que ainda não encontraram candidatos adequados para transmitir o seu conhecimento podem não ter tempo para fazê-lo”.

* Fontes FringeBacker, Asia Tatler e material próprio.

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