Autoajuda, Clichês Marciais e Hipocrisia na Arena Organizacional

CEOs

O mundo de hoje transforma ouro em latão. Estava demorando, mas finalmente um “gênio” da consultoria e coaching de liderança e gestão resolveu usar todo o repertório de clichês marciais (no caso do  kung fu)  para produzir outra compilação de platitudes e obviedades, o livro No Caminho da Vitória. Antes, muitos anos antes de praticar arte marcial, eu já desprezava este tipo de escumalha autoral e editorial, que só estimula o individualismo e a manutenção de uma lógica instrumental do outro sob a falsa capa da gestão ética, que grassava nos ambientes que eu frequentava por força de ter exercido funções executivas em organizações. E reservava uma parte significativa deste desprezo para seus admiradores: os “líderes” que indicavam coisas como “O monge e o executivo” (argh!) como leitura “ética” obrigatória, como se fossem obras de Platão, Russel ou Arendt.

Depois que fiz um mestrado sobre ética judaica, passei a ser aluna de kung fu e voltei, décadas depois. a ler sobre espiritualidade e filosofia oriental, aí que não tolero mesmo esse tipo de besteira, pois acho um desrespeito profundo (aliás espiritualidade e religião são coisas tão sagradas pra mim que sou agnóstica).

O pensamento oriental tem como um de seus vértices a unificação por via da manutenção da individualidade de princípios contrários, mas complementares: só há integração porque existe a dualidade e é a partir da aceitação e não da negação dessa dualidade que se dá a sua superação. Isso é justamente o oposto da prática real de quase 100% das empresas. Estas, em sua maioria, utilizam a hipocrisia das políticas de gestão participativa como disfarce para a utilização daquela máxima soberbamente pronunciada pela boca de Burt Lancaster como o Príncipe de Salinas no Il Gattopardo, “Mudar para que tudo permaneça como está” – perdão Burt, Lampedusa e Visconti por citar tal joia neste contexto infame.

Para mim, a harmonização de uma doutrina (aqui generalizo e faço um cozinhado das várias correntes budistas, taoismo, confucionismo e etc.) que sacraliza em seu estado puro a riqueza da diferença, mesmo que sob  o véu da discrição,  e que abriu mão do julgamento é o oposto da prática administrativa ocidental: por mais que os setores de Comunicação e RH se esforcem e o MKT faça seu trabalho, o que impera ainda – e de uma maneira muitas vezes covardemente camuflada – é a noção de que o corpo funcional é inimigo da empresa e deve ser conduzido e vigiado como um gado traiçoeiro – é o tal do fordismo insepulto: Carlitos apertando os parafusos enlouquecidamente em Tempos Modernos.

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A lógica também se aplica à construção de uma “carreira” nessas organizações padrão. O que está em jogo não é o autoaperfeiçoamento e seu reflexo em atitudes, rotinas e aprimoramento de fazeres e saberes, não é o “brio” do fazer bem feito tão caro aos japoneses, por exemplo, o prazer de crescer e semear o crescimento dos que estão à volta; mas a eficácia. E para ser “eficaz” o profissional de “sucesso” terá, necessariamente, que “jogar o jogo”. Não o “seu jogo”, a “sua luta”, mas a luta do mercado, da política e da cultura REAL da organização (não da cultura idealizada, vendida e publicizada do maravilhoso mundo de empresas como a Coca-Cola, ou dos bancos e dos planos de saúde, tão preocupados com o seu bem-estar, de sua família,da comunidade, do planeta e  quiça  de nossos  irmãos interplanetários).

Esse  combate exige sim resiliência, superação e motivação, mas é muita ingenuidade, ignorância ou má-fé achar que usar “o amor”, “o coração” ou “um sentido maior”, como destaca o autor do livro, vai fazer alguém que tenha aspirações de chegar a um alto cargo executivo  ter algum  tipo de vantagem competitiva.  A vantagem aqui é  humana e ética, sem dúvida; mas, sejamos realistas: experimente, caso ocupe um cargo executivo ou de staff em alguma corporação,  usar seu coração e levantar a voz contra alguma injustiça salarial ou de política funcional ou desvio e/ou mau uso de recursos flagrante. Ah, uma vantagem você vai ter, os socos e pontapés do tatame vão parecer um carinho perto da surra moral que você vai levar.

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Qualquer um que tenha trabalhado em uma grande empresa percebe de pronto que toda a estrutura da gestão está à serviço do aumento da produtividade e competitividade (o Capitalismo é um senhor que ultrapassou os 100 anos com saúde excelente). E que isso se dá por via da reprodução especular dessa competitividade no ambiente interno, entre os setores e profissionais do nível tático e do estratégico, alimentada por ferramentas como as avaliações de desempenho quantitativas, metodologias como o BSC, as métricas e metas e os planejamentos que, estranhamente, só concretizam os planos financeiros e operacionais e quase nunca os voltados as pessoas, leia-se, funcionários (ou o singelo termo “colaboradores” como algumas adotam) e clientes (também conhecidos pela terna expressão “beneficiários”).

A história, a cultura, a filosofia, a espiritualidade, o budo, o bushido, o kung fu, as artes marciais orientais e seus praticantes não merecem este tipo de mistura. Deixem isso para quem gosta de ler “Quem mexeu no MEU queijo”.

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