Filme – O Grande Mestre de Wong Kar Wai

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Uma paixão pode se tornar o galho que lhe sustenta a beira do abismo ou a pedra que desliza e o arremete às suas profundezas. O kung fu foi para Ip Man e Gong Er, personagens de O Grande Mestre de Wong Kar Wai, uma obsessão, mas, enquanto para ele a arte foi o lastro que o permitiu sobreviver às perdas e ao exílio, para ela foi um amor trágico nunca consumado.

Muitos viram o filme como uma obra indefinida: os admiradores do premiado diretor chinês não entenderam sua opção por um “filme de luta”; os admiradores de filmes de luta, por sua vez, o consideraram “confuso”, “lento”, “chato” e “pouco marcial”. Ambos não se esforçaram para ir além do tema imediato e enxergar que o filme é um tratado histórico e emocional sobre um dos períodos definidores da identidade chinesa, filmado como uma meditação sobre a perda irreparável, a memória, a ressignificação de um legado e a resignação diante de forças fora do controle.

O filme não é de nenhuma forma autoexplicativo, e isso certamente contribuiu para os narizes torcidos, contendo um complexo pano de fundo histórico que o diretor não faz questão de esmiuçar. Em resumo: é um filme para quem se interessa minimamente pela cultura chinesa e para um espectador que não se incomoda de estar atento a detalhes; por isso entendo quem acha que o filme é uma sequência de lutas costurada por intervalos herméticos. Mas como não apreciar o estado de arte dessas lutas?

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Os estilos de kung fu não funcionam no filme apenas como metáfora das “identidades chinesas”, suas demonstrações são um tributo a uma das obsessões de Kar Wai (amante dos filmes de Bruce Lee) e a uma arte que sintetiza o espirito chinês através dos tempos. Além de soberbamente fotografadas e fiéis aos estilos que retratam [eu posso ser uma lutadora medíocre, mas minha curiosidade é de mestre] as coreografias das lutas estão entre as melhores que já vi – o fato da imensa maioria serem combates de mãos nuas contribui para o realismo.

Os combates foram dirigidos por Yuen Wo Ping, responsável por trabalhos como Drunken Master, Matrix e Kill Bill, um dos mais respeitados diretores de cenas de ação. O uso das lentes e a alternância inteligente do slow motion, que captam detalhes ínfimos como as gotas de sangue e chuva e as transições dos golpes, refletem o estado de atenção plena em um combate.

 Todas as Lutas de O Grande Mestre Rankeadas

A ideia de Kar Wai era montar um filme com quatro horas de duração, que enfocaria 10 personagens. Cada personagem teria uma história completa contada em um capítulo e não mais apareceria no capítulo seguinte. Acabou decidindo abandonar a ideia e editar o material de forma sucinta, mas panorâmica – isso explica a sensação de que os enredos e personagens não se completam; em minha opinião o personagem melhor delineado é Gong Er. No início da produção, o diretor viajou por nove cidades da China e de Taiwan tendo como guia o treinador de kung fu Wu Bin. Wu, professor de Jet Li. A viagem se tornou um documentário, The Road to the Grandmaster.

ACRESCENTADO EM 14/05/2016: O vídeo do doc The Road to the Grandmaster não está mais disponível no You Tube. Retirei o link e achei este making of; não é tão bom e está em chinês, mas é interessante acompanhar a preparação dos atores.

 

A produção de O Grande Mestre demorou seis anos, a maior parte dedicada à pesquisa, treino e coreografia das sequencias de luta. Tony Leung teve aulas de Wing Chum com Duncan Leung e disse que o kung fu é como o zen: “Você tem que se harmonizar com seu oponente. Ele não é seu inimigo, não mais do que seu ambiente é seu inimigo. Quanto mais eu estudo kung fu, mais fascinando eu fico.” Assim como Leung, Zhang Ziyi e Chang Chen também treinaram duro. Sob a orientação do mestre do estilo Baji Quan, Wang Shiquan, Chen saiu-se tão bem que ficou em primeiro lugar em uma competição nacional do estilo em 2012!

Entrevista de Wong Kar Wai na Dazed: Lutar é Como Beijar

Enredo

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O filme começa com um combate múltiplo na chuva. Não há explicação anterior ou posterior para o ataque dos homens ao protagonista, mas isso não tem nenhuma importância diante da sequência, que é magnífica. O enredo mostra Ip Man (Tony Leung) próximo dos 40 anos como um cidadão de Fosham bem casado, rico e respeitado artista marcial. Às vésperas da segunda guerra sino japonesa (1937-1945) quando a Manchúria, no Nordeste do País, já estava sob o controle do Japão, Gong Baosen, o líder da sociedade dos guerreiros chineses do Norte e unificador dos estilos Bagua e Xingyi Quan, pretende se retirar e vai até Fosham com o objetivo de promover um intercâmbio entre o kung fu do Norte e o do Sul.

Mas seu objetivo oculto é conseguir um aliado-líder no movimento de resistência dos praticantes de artes marciais à invasão japonesa e criar uma ponte com o Sul, que estava politicamente separado. A união dos estilos do Norte e do Sul representa a união dos esforços contra a invasores. A intenção de Gong era transmitir essa responsabilidade a um homem mais jovem e com um reconhecido caráter e maestria na arte.

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O encontro dos mestres se dá em um prostibulo, O Pavilhão Dourado, e, após serem batidos por Ma San, mestre de Xingyi, filho adotivo e herdeiro da linhagem da família Gong, os mestres do Sul indicam Ip Man como o mais capaz para travar um duelo com o Mestre. O Pavilhão de Ouro, no entanto, não é um bordel comum: todos parecem ter algo a esconder e podem ser espiões, agentes duplos ou exímios mestres de kung fu. A luta com Gong, no entanto, se assemelha mais a uma discussão filosófica, na qual o mestre do Norte concede a vitória a Ip.

A filha de mestre Gong, Gong Er (Zhang Ziyi), também foi ao Pavilhão Dourado. Ciosa do legado da família, ela oscila entre a admiração e a raiva quando Ip Man vence a contenda com seu pai. Embora não possa sucede-lo “por ser mulher” em um período onde a presença feminina nas artes não era bem aceita – seu pai a aconselha a casar e tornar-se médica -, Gong Er é uma eximia lutadora de Bagua e é a única que conhece a técnica esotérica das 64 Mãos transmitida por seu pai. Ela luta com Ip Man em uma das sequencias mais bonitas do filme e o combate é como uma cena de amor.

Ocorre que o ardiloso e desleal Ma San se alia aos japoneses e mata seu mestre. Gong Er então muda radicalmente seu destino:  faz votos de não se casar, não ter filhos e de jamais ensinar ou transmitir sua arte para se dedicar apenas a vingar a morte do pai e retomar o legado de sua família de Ma San. Gong Er é um personagem fictício, segundo Kar Wai ela é a síntese de várias heroínas lendárias.

Ela e Ip Man passam então a ter uma relação platônica. Ele planeja viajar para o Norte com sua esposa, mas a guerra irrompe, os japoneses invadem Fosham, tomam a casa de Ip e sua fortuna e ele passa a viver na penúria com sua família.

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A eclosão da guerra sino japonesa em 1937 e, posteriormente, da Segunda Grande Guerra, foi como um corte de espada afiada na vida dos personagens.  Sob o tacão japonês, Ip Man e sua esposa tentam sobreviver com dignidade, mas perdem duas filhas (na “vida real” durante este período Ip atuou como agente nacionalista ligado ao Kuomintang) e Gong Er trama sua vingança. Um terceiro personagem então entra na trama, o Navalha (Chang Chen), um agente e assassino nacionalista também a serviço do Kuomintang e que é um mestre de Baji Quan. Gong Er o ajuda a escapar dos japoneses em uma cena em um trem. Esses três personagens só vão se encontrar mais de 12 anos depois em Hong Kong.

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Em 1949 a sucessão de eventos deflagrada no início do século XX com a queda da Dinastia Qing resultou, após o fim da Segunda Guerra e o rendimento dos japoneses, em uma guerra civil (1946-1949). O conflito que opôs o governo republicano capitalista do Kuomintang de Chiang Kai-Shek aos comunistas de Mao Tsé Tung culminou com a vitória do maoísmo, que imediatamente fechou as escolas de artes marciais e estigmatizou professores e praticantes. Muitos artistas marciais migraram para Hong Kong (na época colônia inglesa desde meados do século XIX) fugindo inicialmente da invasão japonesa na Manchúria e depois da Revolução Cultural maoísta. Em 1951 a fronteira entre Hong Kong e a China foi fechada.

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Ip Man chega à cidade-estado sem ter sequer um cobertor. Ele acaba sendo aceito como professor e se estabelece como um grande mestre. O Navalha sai do Kuomintang, não exatamente de forma tranquila para o partido, e abre uma barbearia – que, aparentemente, é uma fachada para seu centro de treinamento marcial e, talvez, para algo mais.

Gong Er vive na cidade exercendo a medicina. Ela e Ip se reencontram após 13 anos. Ela lhe conta sobre sua vingança contra Ma San e o filme mostra um magnífico flash back do combate dos dois em uma estação de trem gelada na Manchúria 10 anos antes. Gong Er sai vitoriosa e retoma o legado dos Gong, mas fica seriamente ferida. Os dois se encontram apenas mais uma vez em um interlúdio melancólico, quando Gong Er lhe confessa seu amor e se recusa a mostrar mais uma vez as 64 Mãos, pois tinha feito votos de não transmitir seus conhecimentos.

Tempo e Identidade

O tema do tempo e do passado é recorrente no filme. Segundo o diretor, Gong Er de certa maneira é para Ip Man o símbolo de um tempo que ele gostaria que retornasse “quase como se fosse um ‘paraíso perdido’”. Para mim é dessa forma que deve ser entendida a importância dada no filme a um botão de casaco luxuoso, que Ip Man vende para comprar comida durante a guerra; ele guarda o botão e o leva para Hong Kong. No primeiro encontro com Gong Er, ele diz que é o botão do casaco que usaria para a visita ao Norte que nunca ocorreu. No último encontro dos dois, Gong Er lhe devolve o botão, como a dizer com resignação que o passado/futuro roubado dos dois já não tem importância. Ela escolheu viver no passado; ele conseguiu resignificar esse passado e vislumbrar um futuro. Como diz mestre Gong “o tempo nos torna aquilo que somos”.

Kar Wai aborda o kung fu como metáfora de uma tradição multifacetada mas coesa e como símbolo da resistência da cultura chinesa frente aos percalços da história.  O Norte e o Sul são correlatos de uma divisão imaginaria de natureza apenas formal, mas não de essência: Da mesma forma que os lutadores não se distinguem por praticarem um estilo ou outro, mas pela forma como encarram sua arte, o espirito chinês estaria para além das divisões territoriais; como diz Ip no final do confronto com Mestre Gong “este pais é muito maior do que o Norte e o Sul”.

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É também o kung fu que no filme define a identidade das pessoas, e não suas funções ou posição social. Assim, o contador do bordel é um mestre de Xingyi e a prostituta na arte do Bagua. Ip Man perde seu status, seu dinheiro, sua terra e sua família, mas permanece sendo quem é. A arte é vista como expressão coletiva e ancestral e também pessoal, como busca do autoconhecimento, da autocriação. “O kung fu não é entretenimento…o exibicionismo é grotesco”, diz Gong Er.

Como lugar de exílio, não escolhido, mas oportuno, Hong Kong se torna o espaço onde chineses das mais diversas regiões, particularmente do Nordeste e do Cantão, reescrevem suas vidas e tentam manter seus costumes. O que une a China são as suas diferenças e a luta para preservá-las (não por acaso, a forma de controle escolhida pelo maoísmo foi a normatização e a impessoalidade). Navalha abandona o Kuomintang e reafirma sua identidade e liberdade como um praticante de Baji Quan; Gong Er prefere deixar o legado das 64 Mãos morrer a vê-lo deturpado nas mãos de Ma San e, ironicamente, ao salvá-lo da corrupção o condena ao desaparecimento.

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A maior renúncia de Gong Er não foi ao casamento e aos filhos, mas ao kung fu – e também ao amor de Ip, o que, no contexto do filme, se equivalem. Ao fazer os votos diante de buda ela abre mão da transmissão de sua arte, o que não a impede de continuar alimentando sua paixão como uma obsessão que, junto com as dores causadas pelo embate com Ma San, a torna viciada em ópio e acaba por matá-la.

No último encontro com Ip Man, ela fala com amargura e resignação sobre sua escolha e a perda dessa herança dizendo que muitas outras escolas já desapareceram no tempo.  “A família Gong nunca tem a chance de ganhar por minha causa, ela só pode perder por minha causa. Eu destruí em uma noite as habilidades únicas que meu pai me ensinou. Eu derrotei Ma San[…] No entanto, ao mesmo tempo, eu também destruí as habilidades aperfeiçoadas por meu pai em toda a sua vida.” Talvez essa seja a chave emocional do filme para Kar Wai: ao tentar sobreviver como nação a China foi fazendo escolhas erradas ao longo dos séculos e deixando morrer sua identidade.

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O Grande Mestre – Dublado em Português

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1 comentário Adicione o seu

  1. orderfromnoise disse:

    Republicou isso em Ordem no ruído.

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