Abaixo a polarização: por que tenho antipatia pelas dicotomias simplificadoras no kung fu

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Ana Calazans

Sou um texugo de tanta curiosidade e, apesar de treinar choy lay fut, e agora também wing chun, sempre tive um imenso interesse pelo corpo integral do kung fu. Minha visão dele é a de um organismo único com várias manifestações; o que integra os estilos é a ideia de ‘Budo’, o “caminho das artes marciais” japonês [se tiver interesse leia aqui um texto do blog sobre o tema].

Existe uma tendência que me incomoda – compreensível até certo ponto por razões culturais, politicas, narcísicas e mesmo de hegemonia comercial  e de ‘marcas’: a de  muitos praticantes e instrutores se colocarem na defensiva e assumirem a postura de “Meu estilo é melhor”!”. Esse  comportamento para mim é uma interpretação equivocada e rasteira de um movimento histórico no kung fu, o de polarizarção de escolas e estilos; e mesmo de alguns ‘kwoon’. A complexidade das disputas familiares, dinásticas e políticas na historia da China e o igualmente complexo desenvolvimento da arte marcial no país tornou a dicotomia e a distinção quase uma marca das artes marciais chinesas. Assim é comum praticantes se depararem com as já conhecidas segmentações entre Norte e Sul, interno e externo, pernas e punhos etc. e as interpretarem como reflexo de uma abordagem competitiva e beligerante da arte. Não é que essas diferenças e ‘qualidades’ distintivas não existam de fato; elas existem e só enriquecem o kung fu. O que não concordo é com o ‘rankeamento’.

Nesse texto, muito pouco ortodoxo e extremamente idiossincrático – não suporto convenções e polarizações -, vou escrever sobre minha percepção sobre a questão de uma forma propositalmente provocadora. O objetivo não é mudar a visão de ninguém; o fiz como um exercício de observação.

Dificuldade VS Facilidade

 Quando comecei a treinar choy lay fut vi um vídeo de ton long, louva-a-deus, e fiquei espantada com a complexidade e variedade de formas. Fiz então a meu professor uma daquelas perguntas bem básicas de iniciante: “Qual é o estilo mais difícil de aprender? ” Meu professor usou como exemplo três estilos, o ton long, o choy lay fut e o wing chun, para me dizer que a facilidade ou dificuldade de uma escola não tem a ver em essência com a quantidade ou complexidade de formas, mas com a habilidade natural de algumas pessoas, que vai depender da estrutura física e mental de cada indivíduo e de seu potencial para se tornar hábil no domínio das técnicas.

Ton Long – Kung Fu Louva-a-Deus

Choy Lay Fut – 5° ITKFA Championship: Rafael Gusmão forma Tuet Gi Kuen (kati faixa vermelha)

Em termos simplificados, o louva-a-deus é um estilo mais complicado e rebuscado; o choy lay fut, também considerado um estilo complexo, é aparentemente mais simples que o louva-a-deus e, por fim, o wing chun, que possui apenas três formas de mão e duas de armas, segundo um raciocínio rasteiro, seria a escola menos complexa. Ocorre que um aluno pode ter como habilidades inatas a velocidade, mobilidade e equilíbrio de ‘eixo’ que demandam o ton long, mas não possuir o nível de concentração e relaxamento exigido para a prática do wing chun, ou a potência requerida pelo choy lay fut. Dessa forma, até mesmo o aprendizado da forma inicial do wing chun, o siu nin tao (‘pequena ideia’), seria difícil para ele. Seguindo esse viés, o consenso de que os estilos externos ou duros, baseados na potência e na explosão, são ‘mais fáceis e rápidos de aprender’ do que as artes internas ou suaves, não me convence.

Outro ponto relacionado à questão é a falsa ideia, reforçada pelas apresentações/shows de wushu e da face comercial do atual Mosteiro Shaolin, de que quanto mais piruetas, contorções e saltos melhor o kung fu. Se formos levar em conta a tradição marcial da arte, estas emulações do Cirque du Soleil são as maneiras mais fáceis de se levar a pior em um confronto. Pois, quanto mais complexos os movimentos, mais lentos eles serão – mesmo se aplicados em um combate por um praticante exímio e veloz-, mais tempo se perde e mais brechas se abrem para um contra-ataque. O estado de arte do corpo desses artistas, verdadeiros bailarinos mágicos, serve para demonstrar outra coisa: a capacidade de desenvolvimento proporcionada por um trabalho corporal de músculos e tendões sistemático e pesado.

Depois de cinco anos de treinos que desafiaram na mesma medida meu corpo, minha mente e meu ego, eu creio piamente no significado da expressão kung fu: ‘trabalho árduo’ ou excelência, ou virtude, adquirida por ele; a habilidade primária exigida para um praticante é a paciência e a persistência.

 Norte VS Sul

  • Posturas Baixas e Posturas Altas

O argumento geográfico me parece por demais raquítico. Ele sustenta que as formas e técnicas do Norte são “altas’ porque o terreno dessa região da China é mais sólido, montanhoso e acidentado, exigindo assim um posicionamento ereto que favoreceria um maior apoio e velocidade para saltos e chutes; e que as posturas do Sul são baixas devido a região ser tomada em boa parte por charcos e terrenos alagados – a postura baixa favoreceria a estabilidade numa luta realizada em embarcações.

Essa fundamentação cai por terra se temos alguma familiaridade com estilos internos como o tai chi e o bagua, criados na região da Montanha Wudang (não existe concordância sobre o enquadramento dos estilos internos como escolas do ‘Norte’ ou do ‘Sul’; seu encaixe nas regiões costumam variar nos textos. (A esse respeito  veja texto sobre os estilos internos aqui no blog), que possuem algumas das posturas mais baixas e rasteiras do kung fu. O mesmo pode se dizer do chan quan, estilo do Norte de linhagem muçulmana que originou a famosa forma tan tui, na qual se alternam chutes retos com posturas de cavalo extremamente baixas. A observação vale também para um dos mais populares estilos do Sul, o wing chun, que possui formas eminentemente altas.

Chan Quan

  • Pernas e Punhos

 “Punhos no Sul, pernas no Norte”, a frase se baseia no mesmo argumento geográfico citado acima. É sabido que alguns estilos do Sul utilizam uma maior variedade de golpes de punho, sendo o choy lay fut exemplar pela utilização de cinco deles (pantera, tigre, dragão, garça e serpente) e mais as técnicas da palma de buda, tanto com a mão espalmada como em forma de ‘faca’. As escolas do Norte, por sua vez, costumam usar, em sua maioria, punhos característicos únicos, ou duplos, juntamente com o usual punho fechado. É o caso da palma bagua (a ‘boca do tigre’), do punho do louva-a-deus do Norte, das garras do eagle claw e das palmas do tai chi. Mas é importante notar que, embora pouco variadas, as formas de mão são distintivas dos estilos, sendo responsáveis muitas vezes por batizá-los.

Quanto aos chutes, técnicas do Norte como o baiji quan e o próprios estilos de Wudang costumam utilizar pouco os golpes de perna, dando preferência para os chutes frontais de meia altura ao estilo do tan tui. Enquanto que o já citado choy lay fut possui um repertório de chutes (baixos, médios e altos) e saltos maior que a maioria dos estilos do Norte e o wing chun é reconhecido pela eficiência de seus chutes baixos e médios direcionados as articulações e juntas dos oponentes.

Shaolin do Sul – Punho da Serpente

Outro ponto é o de que “pernas” não se limitam a chutes. O trabalho de pés e pernas (footwork) é extremamente evoluído nos estilos ditos sulistas, sendo, inclusive, basilar no wing chun, com inúmeras transições, desvios, avanços e mudanças de direção que auxiliam, assim como ocorre no Norte, as mudanças de eixo, direção e peso. Além disso existem diversas técnicas de pernas voltadas para bloqueios, empurrões e rasteiras como no Fujian white crane, o estilo da garça branca.

 Interno VS Externo

  • Suave e Duro/Veloz e Lento

A distinção entre estilo interno (nei jia) e externo (wai jia) é uma das mais conhecidas no kung fu. Os nei jia têm ênfase no controle do fluxo de energia (chi) e concentração e necessita do relaxamento para o encadeamento de golpes, por isso são chamados de ‘estilos suaves’. Os wai jia, por sua vez, têm foco prioritário na força muscular e na mecânica dos golpes, assim são conhecidos como ‘estilos duros’.

A mecânica de aplicação da força é uma característica distintiva. Nos estilos suaves o praticante não ‘confronta’ a potência do golpe adversário; as técnicas são orientadas para a evasão, absorção e redirecionamento dos golpes, aplicando a força na direção na qual um oponente se move enquanto esquiva.  Conforme destaca Thomas Green no verbete ‘Artes Marciais Chinesas Externas e Internas’ da Enciclopédia de Artes Marciais do Mundo “os movimentos são arredondados ou circulares e uma grande ênfase é dada aos movimentos relaxados, ou mesmo lentos, que envolvem um trabalho de corpo em conjunto, mais do que a utilização dos membros separados do tronco. ”

Como dito acima, a percepção e direcionamento do chi também é característica; mas muitos estilos duros externos também necessitam de uma compreensão mais aprofundada do fluxo de energia corporal para que o praticante possa passar para outro nível. Um exemplo conhecido são as técnicas shaolin de absorção de golpes de armas com partes do corpo e o trabalho do hung gar com a projeção de energia dos punhos.

Hung Gar – Formas dos 5 animais e dos 5 elementos

Além disso, só para citar o estilo mais uma vez, o choy lay fut, uma escola extremamente marcial e explosiva, tem como uma de suas características mais marcantes justamente os movimentos circulares, a insistência na conexão entre os membros inferiores, o tronco e os membros superiores, a condução e descarga de chi nos golpes e principalmente o fundamento que orienta o relaxamento (não confundir com frouxidão) dos golpes em sua preparação, e posterior tensionamento, de modo a aproveitar ao máximo a força inercial. Da mesma forma o wing chun é singularmente ‘suave’ em sua técnica externa, utilizando habilidades como chi sao (mãos aderentes) e tendo a ideia de absorção como um de seus fundamentos.

Wing Tsjun Chi-Sao Training – Sifu Luke Boehling

Tai Chi Tui Shou Training

Os estilos externos, ou duros, são reconhecidos por sua potência, velocidade e linearidade, mas qualquer um que observar uma forma do tai chi estilo chen ficará fascinado com sua energia explosiva; o mesmo vai ocorrer com os avanços retos, rápidos e potentes do xingyi, ambos considerados estilos suaves. Algumas formas do hung gar, um estilo duro, são executadas alternando movimentos vigorosos e lentos.

Xing Yi Quan vs. 5 Attackers

  • Budista e Taoísta

 Por fim a polarização que considero mais interessante: a que divide os estilos entre os derivados do Templo Shaolin (do Norte e do Sul) e da Montanha Wudang. É uma convenção dizer que as escolas externas se originaram nos templos shaolin, berço do budismo chan, enquanto que as internas vieram de Wudang, onde havia uma concentração de templos taoístas. Não vou me alongar porque esse tópico merece um texto à parte, mas, para não fugir à linha do artigo, faço uma rápida consideração.

Assim como existem diversos estilos sob a rubrica ‘kung fu’, as interpretações doutrinárias das principais correntes religiosas chinesas também desenharam uma imagem multifacetada através dos séculos, mesclando seus preceitos éticos e místicos e tornando-se sincréticas; o próprio budismo chan de Bodhidharma, que deu origem ao zen japonês, foi  muito influenciado pelo confucionismo e pelo taoísmo e ao longo da história chinesa sofreu diversas reformas e cismas.

A conexão com o kung fu e as artes da guerra propiciaram ainda a integração de lendas e do folclore e alçaram ao panteão religioso guerreiros mitológicos como Kwan Kun. Outro ponto a destacar é a forte presença dos princípios muçulmanos da etnia Hui, que desenvolveu estilos famosos como o chaquan, a forma tan tui e técnicas que integram o bajiquan e o xingyiquan.

ERRATA: Esqueci de mencionar, e fui alertada por meu Si-hing, de que são seis, e não cinco, as formas do wing chun; deixei de citar a forma de mão com o boneco de madeira, Mok Yan Chong.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Ludmila Pires disse:

    Excelente e muito esclarecedor!

    Creio que a perpetuação dessas dicotomias perpassa, principalmente nos dias de hoje, por uma ideologia puramente econômica. Ressaltar diferenças aparentes de modo a comparar estilos (“o mais difícil, o mais fácil, o mais rápido, o mais lento”, etc.) virou uma ferramenta de ditos “mestres” e professores apenas para manter mais alunos – criando barreiras entre escolas e seus praticantes. Um monstruoso comércio, diga-se de passagem.

    Costumo dizer que “interno e externo” não se separam, mas falar isso para muita gente hoje soa como ofensa ou coisa de outro mundo. É estarrecedor.

    Enfim, estou no aguardo por um texto seu sobre a aparente dicotomia “Budista e Taoísta”.

    Parabéns pelo texto!

    Abraços.

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    1. orderfromnoise disse:

      Ludmila você sempre gentil! Fico feliz que você, que tanto reflete sobre as artes marciais, tenha gostado e pense da mesma forma. Kin lay e um abraço

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