Kung Fu – Mestres Além do Tempo

Ana Calazans

Um dia meu professor de Choy Lay Fut, João Sérgio, me disse que eu não deveria lamentar o fato de ter começado a praticar tarde. O maior desafio do kung fu para mim sempre foi lutar contra meu ego; contra a parte de mim que, por vaidade e orgulho, se irritava e frustrava por não ter a potência e a velocidade exigidas para o estilo.  Ele me fez ver algo que eu sentia intuitivamente, mas que a dificuldade dos treinos de faixa avançada – e mesmo das iniciais – acabava por obscurecer: o kung fu é para todos; mesmo que o praticante não tenha pulmão suficiente, força suficiente, agilidade suficiente, concentração suficiente… Pois a tradução de ‘suficiente’ no kung fu é: ‘o melhor que você pode fazer…agora’.

Ele me  falou sobre a ‘intenção’ de praticar. Algo similar aos que os zen budistas dizem sobre o zazen: é preciso estar disposto a praticar sempre, além desta vida, praticar com a disposição de fazê-lo por muitas vidas. Esta disposição é por si só uma ‘habilidade’ e, assim, a ideia de ‘perfeição’ perde o sentido

Kung Fu é sobre a sua relação com você mesmo por inteiro. Sobre a forma como o praticante consegue integrar corpo, mente e espírito, sobre a forma como o praticante passa a se conhecer como uma unidade orgânica e re-cria a si mesmo – sobre como é capaz de ser seu próprio artífice, capaz de exercitar a ‘autopoiesis’. E sobre como é capaz de mobilizar-se por inteiro no instante em que vive.

Claro que é sobre combate!

As lutas, as formas, os exercícios e técnicas são as ferramentas, mas não o objetivo. Até mesmo porque não existe, a rigor, um objetivo: se tudo é impermanente, hoje somos um ‘outro’ diferente do que éramos ontem. Sob este ponto de vista, a perfeição ou imperfeição de uma forma ou a estamina ou cansaço em um combate de sanshou são os dois lados de um mesmo espelho. Cada um manifesta o que está a seu alcance manifestar naquele instante. A experiência é unica, sempre renovada, e não devemos julgá-la. Por mais difícil que isso seja, o não-julgamento, é parte indissociável do kung fu.  Esteja presente! Só isso.

Como registra Linji Yixuan (em japonês: Rinzai Gigen) – citado por Alan W. Watts em “O Budismo Zen”, p. 184:

Em todo lado se diz que há um Tao que deve ser cultivado e um Dharma que deve ser compreendido. Que Dharma dizes dever ser compreendido e que Tao cultivado? O que falta ao modo como funcionas neste preciso momento? Que poderás acrescentar ao onde estás?

Abaixo cinco vídeos de mestres de Bagua, Hung Gar, Wing Chun e Taichi; todos com mais de 80 anos.

Mestre de Bagua Lu Zijian (117 anos) – Taiyi Huolong Palm

Mestre Tai Chi Estilo Yang Cheng Man Ching – 37-Movement Tai Chi Chuan

Mestre Hung Gar Yeung Dakyau (90 anos) – Tiger and Crane Pair Form

Mestre Tai Chi Estilo Chen Tian Jian Hua (88 anos)

Mestre de Wing Chun (110 anos)

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