AS TRÊS FONTES DO CHOY LAY FUT III – FUT GAR

Ana Calazans

Leia os dois outros textos da série

AS TRÊS FONTES DO CHOY LAY FUT I – CHOY GAR

AS TRÊS FONTES DO CHOY LAY FUT II – LEE GAR

Fut Gar

Das três fontes do Choy Lay Fut, o Fut Gar é a mais difícil de ser descrita com objetividade. Não pela ausência de referências, mas pela impossibilidade de saber, diante de tantas e tão variadas interpretações e versões sobre seu surgimento, qual a ‘essência’ real da transmissão feita pelo monge ‘Grama Verde’ a Chan Heung.

Fut Gar, ou Estilo da Família do Buda, (Ga ou Gar em cantonês significa família), é a expressão utilizada para se referir a técnicas derivadas das Dezoito Mãos de Lohan, ou Shaolin Lohan Kung Fu. As ‘Palmas de Buda’ só ganharam o nome de Fut Gar após a migração de monges e praticantes para as regiões de Guangdong, Sichuan e Fujian, no Sul. A maior parte dos estudiosos concorda que as técnicas descendem de um antigo sistema do Shaolin do Norte, levado para o Sul por Geen Seen e que teria, inclusive, sido ensinado também a Choy Fook, o mestre de Choy Gar de Chan Heung.

Existem muitas versões sobre sua criação. Uma delas sustenta que o sistema original foi fundamentado por Sam Dak (Dak Jeung), um lendário monge shaolin do templo de Fujian que estudou com Geen Seen. Ele teria migrado para Guangdong para ensinar kung fu no Monastério de Hoi Tung, que mais tarde se tornaria o Templo Shaolin de Guangdong.

O desenvolvimento e disseminação do sistema é creditado a Ching Cho Wor Seung. O ‘folclore’ do estilo registra outros dois nomes para ele: Choy Fook (o já citado mestre de Choy Gar do criador do Choy Lay Fut) e Ng Ging. Ching Cho Wor Seung teria sido aluno de Geen Seen e sobrevivido a destruição do templo de Fujian. Após a fuga foi viver nas montanhas de Bak Pai, na China Central e passou a usar o nome de Monge Grama Verde.

Outra corrente diz que o Fut Gar foi criado no templo de Fujian pelo monge Leung Tien, que incorporou fundamentos desenvolvidos justamente pelos cinco mestres das famílias meridionais de que já falamos nos artigos anteriores, Choy, Lee, Lau, Mok e Hung, criando o Sil Lum Fut Gar (Buddhist Fist Boxing – Boxe do Punho Budista, outra das denominações do estilo).

Por fim, outra ‘teoria’ diz que as técnicas foram desenvolvidas em meados do século XIX pelo monge Leong Sil Jong do templo Shaolin do Monte San, em Henan.   Jong encontrou um nobre que pediu que ensinasse kung fu a seu filho, Hue Lung Gong, e construiu uma escola para ele. Hue Lung Gong, segundo esta corrente, seria o responsável por disseminar o sistema no Sul da China.

Como se vê é imensa a quantidade e disparidade de versões, aliás uma característica comum a muitos estilos. Além da perda de registros com as destruições dos templos, clandestinidade e constantes migrações dos mestres e praticantes, outra explicação para essa miríade de histórias se deve a competição entre as linhagens e à disputa genealógica das famílias. Os ramos Chan e Hung Sing do Choy Lay Fut, por exemplo, costumam competir entre si para credenciar suas respectivas tradições – e a existência real do Monge Grama Verde é muitas vezes contestada.

Características do sistema

É consenso que o estilo do Punho ou Palma Budista deriva fortemente de técnicas do Norte, tanto de mão como de chutes. É um sistema que se destaca por sua sofisticação: inclui habilidades diversas como autodefesa, defesa contra armas, uma ampla gama de chutes, Chi Kung, armas, combate livre, técnicas de evasão, formas tradicionais, exercícios voltados para a saúde, filosofia, meditação, desenvolvimento da força interior e disciplina. As habilidades do sistema foram de extrema importância para os praticantes de Choy Lay Fut que, como rebeldes, lutaram contra o regime tirânico dos manchus.

Uma das características do Fut Gar é a combinação de aspectos internos e externos. O estilo coloca ênfase na fluidez e é basicamente ofensivo, com defesas conectadas a ataques múltiplos com grande número de movimentos circulares. O ataque e a defesa devem ser quase simultâneos, em um movimento contínuo.

A postura do cavalo é basilar para a defesa e os praticantes do Boxe do Punho Budista seguem uma tradicional recomendação: “A postura do cavalo deve ser tão sólida como o Monte Everest”. Além da fluidez, a face interna do estilo se revela na importância do desenvolvimento e da circulação do chi; o caminho da energia viaja do solo para as pernas e delas para a região da cintura, onde o dantien a distribui.

Entre as técnicas mais utilizadas no estilo estão os ganchos circulares amplos, os socos martelo, além de uma grande variedade de golpes de palma – tanto as que utilizam a palma como as aplicadas com as laterais externas das mãos, estas normalmente direcionadas a pontos chave, como a mandíbula e o pescoço. Entre as habilidades defensivas se destacam os bloqueios circulares e um footwork que coloca ênfase na evasão e na ‘finta’ com grande desenvolvimento da capacidade de manobra do praticante.

O Fut Gar original possui três formas de mãos livres e nove armas. As nove armas originais do estilo são bastão, lança, espada reta, facão, facas borboleta, kwan dao, garfo do tigre, bastão de três seções e pá do monge.

Randy Lau Sil Lum Fut Ga Kung fu

Dai Bat Sin (Fut Gar Kuen) – Grandmaster Chen Rong En

Shaolin tiger and crane set (Fut Ga Kuen)

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