Bastão, O Pai das Armas

Por Ana Calazans 

O bastão, Gun em chinês (também grafado como Kwan, Kwun, Gwa, Gwun e Guen; pronuncia-se Guam) é a arma mais popular do kung fu e a que, a meu ver, melhor encarna sua filosofia. Era a preferida dos monges, que, por seus preceitos éticos, não utilizavam armas com lâminas para não ferir gravemente seus oponentes. O bastão é pragmático: embora seja melhor utilizado em média e longa distância é facilmente manipulável em situações de combate com maior contato e as técnicas de seu manuseio podem ser aplicadas a objetos semelhantes que estejam à mão. Além disso, como possui pontas duplas e tem extensão, pode facilmente ser manipulado para bloquear e atacar, com giros, balanços, estocadas, travas e movimentos ascendentes e descendentes, um ou mais adversários. É ainda a arma que introduz e consolida o domínio de outras armas longas. Por tudo isso e por sua antiguidade costuma ser chamado de “pai de todas as armas”.

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A maioria das artes marciais orientais utiliza bastões de tamanhos variados, a exemplo do Aikido e do Bojutsu japoneses e do Arnis filipino. Na China, as escolas costumam usar o gun de tamanho curto (usado em algumas escolas de Tai Chi), médio (normalmente o padrão é no máximo um palmo acima da altura do praticante) e longo, como o Luk Dim Boon Gwun utilizado no Wing Chun (cujo padrão é três vezes a medida entre o cóccix e a cabeça do praticante). Uma das pontas e ligeiramente mais fina que a outra e eles costumam ser feitos de cera branca (um tipo de madeira), rattan, bambu (muito raros hoje em dia) ou carvalho; o ideal é que combinem resistência e flexibilidade. A maioria dos estilos de kung fu possui formas de bastão, a exemplo do Eagle Claw, Baguazhang, Wing Chun, Hung Gar e Choy Lay Fut, além do chamado kung fu shaolin.

Forma Shaolin

Forma do Hung Gar

Forma do Baguazhang

O Choy Lay Fut e o Wing Chun, embora sejam ambos estilos do Sul, possuem abordagens bem diferentes para o bastão e por isso – e por conhecer um pouco esses estilos – vou falar das duas. Para mim, existe uma diferença visível na maneira que os estilos canalizam a energia no uso dessa arma.  As formas de bastão do CLF são mais “externas”, com uma projeção explosiva. A do Wing Chun é mais contida e interna (isso me pareceu curioso porque a dinâmica de ensino do sistema não costuma focar no trabalho interno).

Por outro lado, o Wing Chun dedica uma atenção especial às técnicas de sensibilidade, Chi Sao, que promovem um refinamento da percepção energética.  Os princípios da técnica e do combate de bastão longo desse estilo me remetem aos duelos míticos do Kendo e do Iaido japoneses, nos quais o domínio do ki é a chave da precisão e da destreza. Pensei nessa relação porque li relatos sobre o caráter quase instantâneo desses toi chas (luta combinada) e pelo provérbio Wing Chun que diz que se deve temer no combate de mãos o adversário mais jovem e forte, mas que na luta com bastão é o mais velho e mais sábio que se deve temer.

 

O Bastão do Choy Lay Fut

 

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O padrão médio usado no Choy Lay Fut possui diversas formas simples e combinadas, como Siu Lum Gun (Bastão da Jovem Floresta, ou Bastão Shaolin) e o Cha Gun. A aparente simplicidade do bastão é enganosa. Nas formas do Choy Lay Fut há um deslocamento de direção contínuo, movimentos ascendentes e descendentes, giros, rotações, estocadas e inversões que exigem não apenas destreza no manuseio, mas uma coordenação fina das três seções do corpo, com saltos, agachamentos, torções e projeções.

Toi Cha de Bastão com a Professora Angela Fornino do Instituto de Kung Fu Shaolin (SP)

Assim como outras formas de armas do CLF, os taolus de bastão têm movimentos com mecânica semelhante aos das formas de mão. A varredura descendente do sau choy por exemplo é emulada, bem como as estocadas em agachamento e os giros no ar. As formas são mais complexas que a do Wing Chun, mas o princípio de transmissão de energia para a arma é semelhante: a energia (chi) concentrada no dantien pela respiração é canalizada através dos braços. A estrutura das formas de bastão do Choy Lay Fut exigem um espaço mais ou menos amplo.

 

Formas de Bastão da Linhagem Lee Koon Hung do Choy Lay Fut

Siu Lum Gun
Mui Fa Cha Gun 
Mui Fa Bin Gwai Gun
Loong Haang Gun
Dai Hung Kai Gun 

Seung Gup Dan Gun

 

Siu Lum Gun – Bastão Shaolin (primeiro kati de bastão do CLF da Linhagem Lee Koon Hung)

Mui Fa Cha Gun (Outra Forma de Toi Cha de Bastão) com o Professor Ronifabio Santos do Instituto de Kung Fu Shaolin (SP)

Mui Fa Bin Gwai Gun

Loong Haang Gun com a Professora Isadora Parisotto do Instituto de Kung Fu Shaolin (SP)

Dai Hung Kai Gun com Grão-Mestre Lee Koon Hung

 

O Bastão do Wing Chun

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O Wing Chun possui uma única forma com técnicas condensadas que leva o nome do próprio bastão, a já citada Luk Dim Boon Gwun. Ao contrário do que muitos pensam, a forma de bastão é linear: apesar do tamanho maior da arma, ela foi feita para confrontos em corredores, túneis ou pórticos estreitos. O deslocamento é frontal, com sutis desvios. Não existem manobras amplas ou acrobáticas. O bastão do Wing Chun foi desenvolvido a partir do bastão longo do Hung Gar, mas se diferenciou consideravelmente ao longo dos anos, particularmente com o aprimoramento de sua técnica por Yip Man. A empunhadura, que no HG era mais ampla, por exemplo, foi encurtada para assegurar uma maior distância, e consequentemente segurança, diante das armas do oponente.

 

A forma do Wing Chun é simples, mas não fácil.  Direta e pragmática, dá ênfase a  precisão e ao footwork ágil . A técnica se baseia na projeção de energia frontal e na teoria da Linha Central, Jung Sin ou Jong Sien. Ela visa proteger o tronco do praticante (onde estão seus órgãos vitais) e é marcada como uma linha que vai do períneo ao palato ou, para efeito de combate, do topo da cabeça ao chão.

A teoria se decompõe no conceito dos Quatro Quadrantes: Uma linha central (o bastão), dois eixos horizontais (o movimento de varredura das pontas do bastão para a esquerda e a direita; chamado de Sin Min Gwun, bastão do leque aberto, por lembrar o movimento feito com o leque chinês), três níveis (alto, médio e baixo, os alvos) e quatro quadrantes, ou quatro portas.  Este último está ligado a ideia, e ao uso, de um antigo ditado que diz: “Uma pessoa guarda o portão e 10.000 intrusos não poderão entrar”. Os espaços acima, abaixo e atrás (o local a ser guardado) estão protegidos e o homem com o bastão deve defender o pórtico através de sua abertura; homens com o bastão longo eram comumente usados para essa função.

 

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