Chin Na, a Arte da Neutralização

Ana Calazans

O Chin Na talvez seja o conjunto de técnicas mais esotérico em todo o arsenal do kung fu; certamente é o mais mal compreendido e o que oferece mais riscos em sua aplicação. É uma arte de submissão e de neutralização.Significa literalmente “Agarrar e Travar” ou, como prefiro, “Controlar e Imobilizar” (Chin = parar, agarrar, interceptar ou apreender; Na = trava, bloqueio). Originalmente era chamado de “arte da separação dos tendões”, “arte de agarramentos e quedas, “arte de distinguir os ossos” e “método de combater com interceptação”. Os antigos a chamavam de Disha Shou.

As técnicas do sistema são maiores e mais variadas do que o senso comum supõe. Vão do popular mata leão ao Dim Mak (Toque da Morte) e incluem técnicas de controle do oponente pela aplicação de travas de articulação (as mais comuns), torções, agarramentos, golpes, projeções, pressão contrária (dobradura) e estrangulamentos, atuando nas articulações, ossos, músculos, tendões e nos pontos vitais. Os verbos do Chin Na são “torcer”, “dobrar” e “pressionar”.

Quanto mais avançado o nível da arte, mais complexas se tornam as conexões entre o Chi e a manifestação da energia externa. O controle e condução do Chi e sua transmutação em “Jin”, a energia exteriorizada que também promove a proteção do corpo de quem emite os golpes, ganha contornos quase ‘mágicos’ na forma como alguns mestres antigos (e mistificadores modernos) tratam do tema. Na literatura do Chin Na, o “Jin” se enquadra como uma habilidade que é responsável tanto pelo poder de penetração do Dim Mak e a pressão correta para deslocar uma junta, como pela capacidade de resistência da base e músculos para aguentar a pressão de um adversário maior e mais forte.

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Desenvolvidas na China em sintonia com as descobertas da Medicina Tradicional Chinesa, as técnicas do Chin Na chegaram ao Japão possivelmente durante o período da dinastia chinesa Ming (1368-1644), quando um mestre, Chen Yuanbin, ensinou sua arte aos japoneses. Com o tempo elas foram incorporadas ao Judô, Jiu Jitsu e Aikidô e também a outros estilos como o Sambo e o Wrestling – a origem do Juji Gatame (chave de braço cruzada), por exemplo, é a técnica de Chin Na “Montando o Cavalo”.

Na pragmática de um combate, o Chin Na pode ser aplicado em duas situações básicas:  1. Quando a capacidade de combate de um oponente é superior a do outro, a técnica é utilizada para imobilizar o adversário de forma a não machucá-lo desnecessariamente (note-se o caráter ético-marcial da técnica e sua conexão com o Wu De chinês e o Bushido nipônico). 2. Quando, em um confronto próximo com muito contato e aderência, suas técnicas podem ser facilmente aplicadas por um praticante hábil.

 

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Como possui técnicas que podem ser fatais ou provocar lesões graves nos ossos e tendões, a arte deve ser praticada com cuidado e atenção plenas e necessita sempre de orientação e monitoramento. Isso se torna ainda mais importante quando se manipula pontos vitais, que são intimamente conectados ao sistema nervoso. A depender de qual ponto de pressão é comprimido ou golpeado, a reação pode ser imediata ou retardada e provocar desde dor até um dano irreparável em um órgão.

Algumas técnicas de Chin Na permaneceram secretas por muito tempo. Uma das mais seguras fontes é um manual de instrução feito especialmente para a Academia de Polícia da Província de Zhejiang e editado em Shangai em 1936. Seu autor é Liu Jin Sheng. Segundo ele, existem 72 técnicas da arte. Há duas traduções para o inglês, confira os links abaixo.

TRADUÇÃO I

TRADUÇÃO II

 

Ótimo vídeo “old school” sobre métodos e ferramentas de treinamento

 

Outro vídeo “old school” sobre a abordagem do Chin Na no Tai Chi

 

Vídeo de Valery Prosvirov com exercícios de aquecimento de articulações e, a partir dos 22 minutos, cerca de 25 técnicas de Chin Na, combinadas e simples

 

Comentários sobre a Técnica

  •  Parece óbvio dizer isso, mas vamos lá: o Chin Na só tem sentido se for treinado em dupla.
  • No que diz respeito a sua aplicação, a velocidade é uma das variáveis mais importantes. A agilidade é o que permite o controle antes de uma reação de evasão ou contra-ataque.
  • A outra variável é a sensibilidade. Alguns mestres dizem que ela é 80% da técnica. Em um confronto rápido e agressivo muitas vezes não há como checar se o oponente está dominado; a percepção do toque é o que dá a segurança.
  • Assim como ocorre em outras técnicas marciais, o praticante deve desenvolver habilidades específicas; no caso do Chin Na é importante a força dos dedos e da palma da mão e a coordenação entre a velocidade e força de rotação do tronco no direcionamento de energia para os braços e mãos e no avanço sobre o oponente.
  • As técnicas devem ser aplicadas utilizando uma potência coordenada e controlada e não forca bruta. É necessária a harmonia entre o Yin e o Yang, o suave e o duro.
  • A face Yin se manifesta nos movimentos que têm como fim a imobilização ou restrição de movimentos; o Yang nos bloqueios ou técnicas mais agressivas.
  • O Chin Na é melhor aplicado como contra-ataque. Embora o praticante possa efetuar um ataque com seus golpes, outras técnicas de punho são muito mais eficientes e apropriadas para uma situação grave que exija uma reação instantânea.
  • Do ponto de vista de quem está recebendo os golpes, é importante adotar uma postura Yin, o mesmo princípio usado pelo Tai Chi e o Aikidô, por exemplo. Isso se deve ao fato de que a técnica utiliza basicamente travas de ossos e tendões o que faz com que quanto mais o oponente resiste, mais pressão faz contra seu próprio corpo e sistema nervoso.
  • É importante manter o foco na guarda e evitar ficar em frente ao oponente. Trabalhe o footwork para se posicionar idealmente nas laterais ou atrás dele.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Luiz Felipe disse:

    Onde aprender/praticar as técnicas de Chi na, na cidade do Rio de Janeiro? Tenho muito interesse.

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    1. orderfromnoise disse:

      Oi Luiz Felipe. Infelizmente não conheço nenhum espaço de kung fu no Rio de Janeiro. Tenho a impressão, talvez errada, de que a arte não é muito popular aí. Mas posso me informar e ver se consigo alguma recomendação de meus professores.

      Um abraço

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