Tradução – Aprender a Lição da Compaixão de Musashi

Artigo encontrado em Black Belt Magazine
Por Dave Lowry – Julho, 2015

Tradução Ana Calazans

Algumas lendas são tão maravilhosas que queremos que sejam verdadeiras. A lenda dos dois encontros do especialista em bo Muso Gonnosuke com Myamoto Musashi é um bom exemplo. Quando jovem, Muso perambulou pelo Japão desafiando artistas marciais a duelar – tanto para ganhar renome como para aperfeiçoar sua arte. A despeito dos sérios riscos de ferimentos ou algo pior, ele superou uma série de guerreiros qualificados com seu bastão.

Enquanto visitava a cidade de Edo (Tóquio), Muso encontrou Musashi, um famoso espadachim cuja reputação estava crescendo rapidamente.  Musashi era um lutador não-convencional cuja formação em um ryu formal era rudimentar, mas ele usou astúcia, estratégia e bravatas para superar seus adversários. De fato, em seu duelo com Muso, Musashi não usou uma espada de aço ou mesmo uma arma de treinamento de madeira. Em vez disso empregou um galho de árvore para derrotar completamente e de forma convincente o adversário – mas ele poupou a vida de Muso.

Muso se retirou para o topo de uma montanha em Kyushu [NOTA DA TRADUTORA: Monte Honman], onde treinou furiosamente e meditou sobre sua arte e sua derrota. Ele acabou sendo recompensado com o que ele considerava ser uma visão divina que o compeliu a encurtar o seu bastão de seis pés de comprimento [NT: provavelmente ele reduziu um bo de 1,80 para 1,28 ]. A modificação permitiu-lhe manipular a arma como uma espada e uma lança, mantendo a sua utilização como um bastão.

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Musashi luta com a baleia, gravura de Utagawa Kuniyoshi (1798-1861)

Mais uma vez ele procurou Musashi e pediu uma revanche. Musashi se sentiu devedor. Desta vez, no entanto, Muso foi capaz de derrotar o seu adversário. Mas, assim como Musashi havia poupado sua vida em seu encontro inicial, Muso deixou Musashi vivo, entregando-lhe – se a história é verdadeira – sua única derrota.

Mais de quatro séculos depois, os descendentes de Muso continuam praticando as técnicas de bastão que ele idealizou, que constituem parte do currículo do Shindo Muso Ryu, ou arte do bastão [NT: A escola é conhecida também como Jujutsu e Jodo, O Caminho do Bastão]. Dentro do “kata” da escola existe uma variedade de métodos letais, bem como bons exemplos de HoDoKu, compaixão, conforme exercida pelo fundador do ryu.

Sempre que ouço argumentos triviais das pessoas que sustentam que a terminologia japonesa no dojo deve ser substituída pelo inglês ou outra língua eu penso em termos como HoDoKu. Pergunto-me que equivalente não-japoneses usariam, porque o conceito e a sua aplicação exigiria páginas de explicações para ser descrito adequadamente.

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O clássico “kata” das artes marciais – quase sempre uma troca entre dois participantes e não as sequências de solo com as quais a maioria dos karatekas estão familiarizados – ensina uma variedade de estratégias de combate. Alguns são longos e complexos, enquanto outros envolvem apenas um único ataque e contra-ataque. Não importa a sua extensão, uma vez que as formas terminam ambos os participantes são deixados em situações potencialmente mortais. Por exemplo, sua arma está apontada diretamente para minha garganta e a  minha está posicionada para quebrar seu pulso. Como é que vamos resolver o impasse? Vamos nos dirigir a uma fonte improvável: a terminologia do budismo.

No budismo, a palavra ko é definida como o momento mais longo no maior espaço de tempo que qualquer ser humano possa conceber  Talvez nosso impasse não durasse tanto; mas, em nossas posições e nossa atitude,devemos estar em estado técnico de ko. Eu estou disposto a tentar manter minha vantagem, assim como você está disposto a tentar manter a sua.

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No dojo, o ko combativo é quebrado quando um participante move voluntariamente sua arma para uma postura não-ameaçadora. Mesmo que ele ainda possa estar em condições de continuar a luta, ele mostra uma vontade de promover a caridade para com o seu parceiro. (É claro que ele não faria isso se a situação fosse real. Nesse caso, o ko é interrompido quando um participante para de respirar.) Essa atitude de compaixão é HoDoKu.

Em Shindo Muso Ryu, um aprendiz está armado com um bastão e o outro maneja a bokken, a espada prática de madeira. Na conclusão do kata, o espadachim  move lentamente a arma para a lateral, baixando-a. Esta postura é chamada hodoku kamae. Devagar, com cuidado e sem perder a concentração, a pessoa com o bastão desliza sua arma de volta para seu flanco, respondendo de forma igualmente humana a caridade do espadachim. Ambos, em seguida, retiram-se para assumir posições e começar a praticar o próximo kata.

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Em um nível, o processo de HoDoKu é puramente mecânico. O fato do espadachim abaixar sua lâmina é uma maneira de trazer o kata a uma conclusão tecnicamente segura. Mesmo que as formas sejam ritualizadas com precisão, elas expõem ambos os praticantes a extremo perigo. As armas são lançadas com força total e param apenas no último segundo, uma fração de uma polegada  de um alvo vulnerável. Os kata não podem ser aperfeiçoados sem inserir um estado mental polido sob as tensões do perigo. Qualquer coisa menos e você está apenas fazendo uma dança.

Tendo em conta estas preocupações, um método seguro para terminar um kata é importante. Mas em um nível mais elevado, HoDoKu é um preceito central que eleva o kata clássico além do mero exercício físico simples ou treinamento mental. Tanto quanto  instila habilidades de combate, ele também impregna a forma e sua prática com a humanidade.

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A única finalidade de kata em uma arte marcial tradicional é ensinar e aperfeiçoar competências e atitudes necessárias para destruir a vida de forma eficiente. Ninguém em uma dessas escolas está tentando olhar bonito ou encontrar a paz interior. O kata são projetados para ensinar morte ou ferimento incapacitante, e qualquer outra coisa que possa surgir é puramente secundária. No entanto, dentro da estrutura do kata é construída, em HoDoKu e em outros aspectos da prática, o potencial para uma grande visão sobre a natureza humana e o real significado do que “é” e  “para quê” lutar.

É fácil apenas falar sobre as recompensas espirituais dos caminhos marciais e ensinar os seus maravilhosos atributos filosóficos. Outra coisa completamente diferente é incluir exemplos físicos destes ensinamentos em sua prática diária. Shindo Muso Ryu faz exatamente isso – como fazem, de uma maneira ou de outra, todas as clássicas disciplinas de combate japonesas.

Portanto, a pergunta que você deve fazer a si mesmo e a seu professor é: O meu budo tem HoDoKu dentro do kata ou em qualquer outro lugar na minha formação? Uma questão ainda mais crucial é: Eu tenho o espírito de HoDoKu dentro de mim?

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2 comentários Adicione o seu

  1. orderfromnoise disse:

    Republicou isso em Tatame.

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