Saiba Mais Sobre o Tan Tui

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Ana Calazans

Periodicamente dou uma olhada nos posts mais pesquisados do blog pelas ferramentas de busca. Os campeões com várias cabeças na dianteira são dois vídeos sobre Tan Tui. Por isso resolvi ir atrás de material novo de vídeo e fazer um texto sobre essa forma, que é popular nos estilos do Norte, particularmente no Shaolin e no Cha Quan (ou Cha Kuen) – Punho Longo.

A informação mais interessante sobre o Tan Tui é a de que ele é uma forma, ou kati, desenvolvida por uma etnia muçulmana chinesa, o povo “Hui”.  Desde o século VII os imperadores costumavam empregar árabes e turcos como soldados. No final do primeiro milênio, auge da consolidação do islamismo no Oriente e parte do Ocidente, mercadores muçulmanos estenderam suas rotas de comércio até a China. Muitos acabaram por se estabelecer na região Noroeste, nas províncias de Henan, Hebei, Shandong e Shaanxi, locais onde mais se pratica a rotina até hoje. A forma é tão estreitamente ligada aos Hui que existe um provérbio: “A partir de Nanquim o melhor Tan Tui é o do Povo Hui “, que se baseia em um trocadilho com a palavra Hui que significa tanto ‘muçulmano’ como ‘melhor’.

As artes marciais desenvolvidas pelos muçulmanos chineses são chamadas de Jiaomen. Entre os estilos Jiaomen mais conhecidos estão o já citado Cha Quan, o Liuhe Quan e o Baji Quan. Os Hui costumam usar um característico barrete na cabeça.

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A vida dos descendentes desses mercadores não foi fácil. Alvo de desconfiança e perseguidos em muitos períodos, foram ao longo dos séculos se integrando à cultura nativa e assimilando as artes de luta locais.  Sete séculos depois (séc. XVII), a lenda conta que um soldado Hui chamado Cha Shangyi, ou Chamir, caiu doente em uma incursão de combate a piratas japoneses na Costa Oriental da China e foi cuidado por camponeses da Província de Guanxian. Depois de seu restabelecimento, ele decidiu ensinar aos aldeões o método de luta que havia desenvolvido como agradecimento pela hospitalidade. O estilo ensinado por Cha Shangyi passou assim a ser praticado pelos camponeses depois da colheita.

Tutorial de 28 minutos com todas as formas do Tan Tui do Punho Longo

Tutorial Passo a Passo (Já Postado Anteriormente)

Tan significa ‘pernas’ e Tui ‘movimento’ ou ‘exercício’.  No início, o Tan Tui era composto de 28 formas, sendo uma para cada letra do alfabeto árabe. Depois as formas foram reduzidas para dez e seu conjunto passou a ser chamado de “As Dez Pernas da Primavera” ou de “As Dez Rotinas (ou Caminhos) da Primavera” – A forma também é chamada de “Pés na Lagoa”, provavelmente pelo fato de muitos camponeses trabalhares nos charcos das plantações de arroz. Tempos depois praticantes mais ao Sul e monges do Mosteiro Shaolin decidiram dividir algumas rotinas mais complicadas em ‘pequenos caminhos’ e o conjunto foi ampliado para 12 rotinas. Embora apareça em diversas ‘escolas’ como o Louva-a-Deus e o Punho Longo, o Tan Tui mais conhecido é o do Shaolin do Norte.

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As rotinas são basicamente uma prática destinada a desenvolver a base para as técnicas marciais; contribuem no aumento da potência, flexibilidade, estabilidade e coordenação motora. São lineares e têm ênfase no trabalho de pernas com chutes fortes de altura média, com foco na área pélvica, e baixa, foco nos joelhos. É executado como uma sequência de chutes, socos e rasteiras para os dois lados.

O artista marcial e escritor Ted Mancuso destaca que embora possa parecer à primeira vista uma rotina robótica, repetitiva e sem graça, o Tan Tui é extremamente importante para a prática marcial (não é à toa que aparece em tantas escolas). Os socos abertos e levemente circulares do estilo, conhecidos como ‘socos laço’, por exemplo, são projetados ao longo dos meridianos da Medicina Tradicional Chinesa e têm o objetivo de revigorá-los. Da mesma forma, os socos com grande abertura têm tanta amplitude que ajudam o estudante a naturalmente relaxar os ombros, ao invés de mantê-los tensos e levantados. Já os chutes longos, que tendem a ser levemente isométricos, fortalecem o abdômen do praticante, forçando-o a estende-lo enquanto chuta. A perna que golpeia se eleva diretamente do chão com um mínimo de impulso.

Vídeo com 12 Rotinas Tan Tui do Shaolin do Norte

Ainda segundo Mancuso, o Tan Tui incentiva o aluno a encontrar o seu alcance máximo do movimento antes de encurtá-lo e abreviá-lo, corrigindo a tendência dos alunos de manter a musculatura tensa para criar energia. Antigamente, a rotina era treinada por um longo tempo; assim que o praticante executava com perfeição os “dez caminhos” o mestre o orientava a executá-los em ordem embaralhada e mesclando movimentos, com mudanças de velocidade de maneira a desafiar sua concentração e senso de direção. [Um dos treinos que mais gosto no Choy Lay Fut – um estilo que mixa técnicas do Sul e do Norte – são os que alternam os lados direito e esquerdo e trabalham a lateralidade e os que alteram a direção das formas.]

Essa didática do Tan Tui também deriva de sua origem. Muitas palavras do vocabulário árabe não possuem vogais. Na poesia elas são comutadas para criar significados e níveis de compreensão distintos – artifício utilizado também por correntes místicas cristãs e do judaísmo, como a Cabala. Este é precisamente o método de ensino para o Tan Tui, que permuta os ‘caminhos’ para formar novas combinações e significados: uma espécie de ‘biblioteca condensada’ de técnicas, movimentos e habilidades.

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