Segredo do Budo, Segredo do Zen – Tradução Taisen Deshimaru

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Kendo:O caminho da espada

*Excerto da Primeira Parte de Zen e Artes Marciais, BUSHIDO: O CAMINHO DO SAMURAI, de Taisen Deshimaru

Tradução Ana Calazans

Um dia um samurai, grande mestre da espada (kendo), desejou obter o verdadeiro segredo da esgrima. Isso ocorreu durante a era Tokugawa. A meia-noite, ele foi ao santuário de Kamakura, subiu os inúmeros degraus que conduziam até ele e rendeu graças ao deus do lugar: Hachinam. No Japão, Hachinam é um grande Bodhisattva que se converteu no protetor do Budo. O samurai lhe rendeu homenagens. Ao descer as escadarias, a meia noite, sentiu, sob uma grande árvore, a presença de um monstro diante dele. Por intuição, desembainhou sua espada em um instante e o matou. O sangue brotava e fluía pelo solo. Ele o havia matado inconscientemente. O Bodhisattva Hachinam não lhe havia ensinado o segredo do Budo. Mas graças a esta experiência, em seu caminho de volta, ele o compreendeu.

A intuição e a ação devem surgir ao mesmo tempo. Não pode haver pensamento na prática do Budo. Não existe nem um só segundo para pensar. Quando se atua, a intenção e a ação devem ser simultâneas. Quando nós dizemos: “O monstro está aqui. Como o matarei?”, quando se duvida, apenas o cérebro frontal entra em ação. Deste modo, o cérebro frontal, o tálamo, (cérebro profundo) e a ação devem coincidir no mesmo instante idêntico. Da mesma maneira que o reflexo da lua não descansa sobre o curso da água enquanto a lua brilha e não se move. Esta é a consciência hishiryo.

Quando durante o zazen digo “não mova, não mova”, isto significa de fato não permanecer sobre um pensamento, deixar os pensamentos passarem. Permanecer em perfeita estabilidade significa na realidade não permanecer. Não mover-se significa na realidade mover-se, não dormir. Isto é como um peão que gira: se pode considerar que está imóvel, mas ele se encontra em plena ação. Só se pode ver seu movimento  no início de seu giro e quando está desacelerando ao final. Assim, a tranquilidade no movimento é o segredo do kendo, o Caminho da Espada. E também o segredo do Budo e do Zazen, que têm o mesmo sabor.

Este espírito é o mesmo em todas as artes marciais, sejam quais forem suas diferenças táticas e técnicas. Assim, o judo (ju, suavidade, do, caminho) é o caminho da flexibilidade (yawara). Mestre Kano foi seu fundador depois da revolução Meiji. Os samurais, esses guerreiros ferozes, aprendiam o yawara, a técnica da suavidade. No Japão, os samurais deviam aprender as artes da guerra e as da vida civil.

Deviam estudar o Budismo, Lao Tsé, Confúcio, e, ao mesmo tempo, aprender o judo, a equitação, o arco e flecha. Desde minha infância aprendi o yawara com meu avô paterno. Meu avô materno era doutor em medicina oriental. Desde essa época fui influenciado pelo judo e pelo espírito da medicina oriental. Então pouco a pouco compreendi que as artes marciais e o Zen têm apenas um sabor e que a medicina oriental e o Zen são uma unidade. Kodo Sawaki dizia em suas conferências que o segredo destas técnicas é o Kyo Shin Ryu, “a arte de conduzir a mente”.

 

 

 

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