Tradução T. Deshimaru – A Sabedoria Imóvel (Zen e Artes Marciais)

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A Sabedoria Imóvel*

Tradução Ana Calazans

A mente do mestre está sempre mudando. Não permanece sobre uma só coisa ou uma só pessoa. Deixa passar… O corpo tampouco permanece. A substância do ego é Fu Do Chi, “sabedoria imóvel”. Entre a intuição, a sabedoria e a ação do corpo, há sempre unidade. Aqui se encontra o segredo do Zen e das artes marciais. Da mesma maneira que as artes marciais não são somente um esporte, o zazen não é um tipo de terapia ou de cultura espiritual.

As artes marciais se constituíram no principio como um método para matar pessoas. A espada japonesa, o tachi[1], é uma espada grande, mas tachi quer dizer também “cortar”. No kendo, Ken, como Tachi, quer dizer “espada” e também “cortar”, de modo que kendo significa “o caminho que corta”. Claramente o kendo remonta aos tempos pré-históricos no Japão. Mas a verdadeira escola do kendo começou em 1346, criada pelo samurai Nodo, seguido em 1348 por Shinkage.

No começo, os samurais desejavam sempre obter poderes objetivos, excepcionais e mágicos. Queriam ser capazes de não ser queimados pelo fogo, de não ser esmagados por uma rocha… Então treinavam sua mente para obter dons sobrenaturais. Queriam obter estes poderes misteriosos, portanto, tinham um objetivo. Mais tarde, o Zen os influenciou. Myamoto Musashi, por exemplo, que foi o maior mestre do kendo do Japão, se converteu também em um sábio. Dizia: “Se deve respeitar a Deus e Buda, mas não se deve depender Deles”.  O método, o Caminho que era uma técnica de matar pessoas se transformou em um método para cortar a própria mente. Caminho do espírito de decisão, de resolução e determinação. Este é o verdadeiro kendo japonês, o verdadeiro Budo. Deve-se ser forte e obter a vitória graças ao espírito de decisão. Situar-se mais além da norma, transcender o combate, fazer dele uma vitória espiritual. Nessa época, no entanto, estas práticas não tinham nada de esportivas, contrariamente ao que ocorre hoje em dia na Europa. Os samurais tinham uma visão mais elevada da vida.

O Zen e as artes marciais não fazem parte de um método de saúde. Os europeus querem utilizar sempre as coisas. O espírito do Zen não pode ser encerrado em um sistema tão estreito. O Zen não tem nada a ver com uma “massagem espiritual”. O Kyosaku[2] pode ser uma boa massagem para a consciência e para o corpo. Ma o zazen não é uma terapia que produz relaxamento e bem-estar e as artes marciais não são um jogo ou um esporte. Neles reside um sentido muito mais profundo e essencial: o da vida! E, consequentemente, o da morte, posto que os dois termos são de fato indissociáveis.

O verdadeiro kendo e o verdadeiro Zen devem estar além da relatividade, isto quer dizer: “deixar de eleger, de selecionar um lado ou outro no relativo”. Tomar uma só decisão! O ser humano é diferente do leão e do tigre. Consequentemente o Caminho do Budo deve estar mais além. O tigre e o leão são fortes e querem vencer, por instinto e desejo. Eles não pensam em abandonar seu ego. Mas os seres humanos podem estar mais além do ego e da morte. No Budo se deve chegar a ser mais forte que um leão ou que um tigre, abandonar o instinto animal apegado ao espírito humano.

No Japão, 200 anos atrás, antes da era Meiji, um mestre de kendo, Shoken, era perturbado por uma ratazana em sua casa. “O congresso de artes marciais dos gatos” é o título desta história:

Todas as noites em sua casa uma ratazana o impedia de dormir. Se via obrigado a descansar no meio do dia. Foi então ver um amigo que adestrava gatos, um domador de gatos. Shoken lhe disse: “Empresta-me o mais forte de seus gatos”. O outro lhe emprestou um gato de rua muito rápido e hábil em agarrar ratões; suas garras eram fortes e seus saltos potentes! Mas, quando entrou na casa, o rato foi mais forte e o gato fugiu. Este rato era realmente muito estranho. Shoken pediu então ao amigo um segundo gato, de padrão tigrado, selvagem, dotado de um ki muito forte, de uma forte energia e de um espírito combativo. Este gato entrou na casa e brigou. O ratão, porém, teve a supremacia e o gato escapuliu! Fez o teste com um terceiro gato, um gato branco e negro, mas este tampouco pode vencer. Shoken pediu então um quarto gato, preto, velho, muito inteligente, embora menos forte que o gato de rua e o gato selvagem. Entrou na casa. O ratão o olhou e se aproximou. O gato se sentou muito tranquilo e não se moveu. Então o rato começou a achar estranho. Se aproximou um pouco mais ligeiramente assustado, e, rapidamente, o gato o agarrou pelo peito, o matou e o levou para fora da casa.

Shoken, então, foi consultar seu amigo e lhe disse: “Há muito tenho perseguido este rato com minha espada de madeira, mas foi ele que me atingiu. Por que este gato negro pôde vencê-lo? Seu amigo lhe respondeu: “Devemos organizar uma reunião e interrogar os gatos. “Você fará as perguntas, pois é um mestre de kendo e certamente os gatos compreendem as artes marciais.”

Houve então uma assembleia de gatos presidida pelo gato negro que era o mais velho. O gato de rua disse: “Eu era o mais forte”. Então o gato negro lhe perguntou: “Por que não ganhou?” O gato de rua respondeu: “Eu sou muito forte, tenho muitas técnicas para agarrar ratões. Minhas garras são fortes e meus saltos potentes, mas esse rato não era como os outros”. O gato negro declarou: “Sua força e sua técnica não podem estar mais além da deste rato. Ainda que seu poder e seu wasa tenham sido muito fortes não terias podido ganhar apenas com suas arte. Impossível!” Então o gato tigrado falou: “Eu sou muito forte, eu treino sempre meu ki, minha energia e minha respiração com o zazen. Me alimento de legumes e de sopa de arroz, por isso minha energia é muito forte. Mas não pude vencer este rato. Por quê?’ o velho gato negro lhe respondeu: “Sua atividade e seu ki são fortes, porém este rato está mais além desse ki. Você é mais fraco que esse grande rato. Se estás apegado a seu ki isso se converte em uma força vazia. Se seu ki é demasiado rápido, muito breve, significa que és somente alguém cheio de paixão. Por isso, se pode dizer, por exemplo, que se sua atividade é comparável a da água saindo de uma torneira, a do rato é parecida com um potente golpe de água. Por isso a força do rato é superior a sua. Ainda que sua energia seja forte de fato ela é fraca porque confias demais em ti mesmo. Depois foi a vez do gato branco e negro que tampouco havia podido vencer. Não era muito forte, mas inteligente. Tinha o satori, havia passado todos os wasa e se contentava em fazer zazen. No entanto não era mushotoku (sem meta e nem espírito de proveito) e também ele havia tido que fugir.

O gato negro lhe disse: “És muito inteligente e forte. Mas não pudeste vencer a este rato porque tinhas uma meta. E a intuição do rato era maior que a tua. Quando você entrou na casa ele compreendeu rapidamente teu estado de espírito. Por isto não pudeste triunfar. Não soubeste harmonizar tua força, tua técnica e tua consciência, que permaneceram separadas em lugar de unificarem-se. Enquanto que eu, em um só instante, utilizei estas três faculdades inconscientemente, naturalmente e automaticamente. Desta maneira pude matar o rato. No entanto, perto daqui, em um vilarejo vizinho, conheço um gato ainda mais forte que eu. Ele é muito velho e seus pelos são grisalhos. Eu já me encontrei com ele e não parece muito forte. Dorme o dia todo. Não come carne, nem peixe, somente guenmai (sopa de arroz)… Algumas vezes bebe um pouco de sakê. Nunca agarrou um único rato porque todos têm medo dele e fogem de sua presença. Nunca chegam perto dele. Por isso ele nunca teve a oportunidade de agarrar um! Um dia ele entrou em uma casa que estava infestada de ratos. Todos fugiram apressadamente e mudaram de casa. Este gato podia caça-los até dormindo. Este gato grisalho é realmente muito misterioso. Tu deves tornar-se assim, estar mais além da postura, mais além da respiração e da consciência

Grande lição para Shoken, o mestre de kendo!

Pelo zazen você já está mais além da postura, da respiração e da consciência.

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*Excerto da Terceira Parte de Zen e Artes Marciais, Bun Bu Ryodo – O Caminho Duplo

[1] Espada utilizada até meados do século XIV no Japão, mais longa e mais curva que a katana. Sua produção a partir do século IX forjou a identidade da espada nipônica. Caiu em desuso por ser ineficiente no ataque a guerreiros com armadura. Nota da Tradutora.

[2] Bastão que o mestre Zen ou os responsáveis pelo dojo se servem para despertar ou acalmar os discípulos que têm problemas em sua postura de zazen. A seu pedido lhes acerta um golpe sobre cada ombro em um ponto com muitos meridianos de acupuntura.

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Taisen Deshimaru Roshi (1914 -1982), um dos maiores divulgadores do Soto Zen no Ocidente

 

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